sexta-feira, 17 de abril de 2009

Romeu e Julieta

Olha, este conto eu escrevi depois de minha pior decepção amorosa. Não está muito bem escrito, talvez algum dia eu dê uma polida nele. Mas tem coisas engraçadas e intensas. Vê o que vc acha, pode ser sincera, pq sei que tá meio abóbora.
Bjs.

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ROMEU E JULIETA

Continuou sentado na pedra olhando para frente sem ver nada, a idéia fixa confundia-se cada vez mais com a realidade e o veneno em sua mão distava quase nada de sua boca. Nunca antes Romeu sentira essa força que o conduzia a sua própria extinção, sem nenhuma cerimônia ou ritual. Não era um suicídio premeditado que previa a possibilidade de sobrevivência. Na sua mão pendia o líquido fatal e sequer buscava em seus pensamentos o desejo de últimas palavras. Enfim era uma morte de quem se cansara de viver. Como um velho que olha para trás sem buscar arrependimentos, mas no meio de tantos bons momentos, só esses lhe vêm a mente e após um sorriso amargo trariam o desejo de findar com tudo aquilo, sem esperança de mudanças. Nos olhos sem brilho de Romeu transparecia esse cansaço, mas Romeu era tão jovem que não podia estar cansado e era exatamente isso que lhe dizia então Thomas Hudson. Romeu devolveu-lhe um olhar passivo e nada respondeu, deixando esse trabalho para “Schopenhauer” que logo interveio:
_ Tão jovem por quê? Deixe-o morrer. O que o resto dos anos pode lhe trazer? Mais sofrimentos? Não há mais o que conhecer, deixe-o morrer. Agora que já não tem mais seu amor é livre, livre para morrer.
Thomas Hudson apanhou o veneno da mão de Romeu e retrucou:
_ Já sei... Dirás que a vida é uma sequência de sofrimentos e que cada alegria não passa de uma interrupção momentânea. Dirás isso a mim que não fiz mais que sofrer nesta puta vida. Vai se foder. Você mesmo disse que ele é livre agora que não tem mais seu amor. Que aproveite então essa liberdade para colher cada uma dessas interrupções. – voltou-se então para Romeu. Olha eu sei que você não acredita em porra nenhuma, mas acredite então nas vaginas.
Romeu continuava passivo ouvindo o que advogava cada um daqueles senhores.
_ Como pode acreditar nas vaginas sem acreditar no amor? - replicou Hemingway que recém chegara, e antes que se rissem de suas palavras prosseguiu – Só o amor nos cobre os sentidos impedindo que a lucidez nos tome após o ato amoroso. Podem dizer os mais fracos que após qualquer beijo só outro beijo pode decorrer. Mas nós sabemos que após a excitação a razão parece vingar-se dos instintos com o medo e a culpa. Que sensação de desgosto... Nós sabemos que só com o amor podemos olhar nossos iguais sem ver sua patética natureza. Portanto se de fato não acreditas no amor, meu caro Romeu, continua vivendo apenas para observar e porque morrer é demasiado trabalhoso.
_ Para observar o que, meu caro Hemingway? – questionou com um riso irônico o velho Schoppenhauer. O detrimento de seu belo corpo e de sua juventude? As marcas do tempo? E que pode nos trazer de bom o tempo? O tempo... essa descida que insistimos em chamar de subida como diz o nosso caro colega Ivan Ilitch... Só os olhos da morte permitem-nos perceber como isto tudo desce e não sobe. Prova disto é que fora necessário que Ivan Ilitch adoecesse para percebê-lo. Ora, todos já sabemos que há tempo Romeu conhece esses olhos, muito antes de abandonar a infância. – dizendo estas palavras tomou o veneno das mãos de Thomas Hudson e entregou-o de volta a Romeu, o qual o segurou novamente ainda olhando para o infinito.
_ Tens toda a razão, caro amigo. – interveio Lorde Henry Wotton desfazendo-se de seu chapéu e sua capa. – Não há nenhuma razão para convencê-lo a continuar vivendo. Exceto que te esqueces de um detalhe: o outro lado, isto é, Julieta. Matar-se seria dar-lhe um trunfo extraordinário. Bem sabes que seria uma glória da qual Julieta se gabaria e pela qual todas as outras mulheres a envidariam para sempre. Tua morte Romeu, não teria nenhuma beleza artística, pois a rudeza da vida real não se deixa subjugar pela arte. Seria por outro lado, uma das maravilhas que a vida real reserva a alguns afortunados como reservou a Dorian, e certamente o fará a Julieta se morreres. Ainda lhe pouparias o fado de encontrar-te, ressuscitando histórias, para elas já mortas e enterradas.
Nesse momento Romeu largou o frasco e suspirou como se tomasse alguma resolução.
_ Sempre brincas com as palavras sem creditar-lhes o mínimo valor. Constróis uma estrutura perfeita com palavras vazias e que nada têm a ver com a vida e é justamente nesse ponto que essa estrutura peca. Um sopro de vida já a derruba sem deixar detritos sequer. Romeu – tornou Schopenhauer ao rapaz – se queres matar-te, lembra-te sempre porque o fazes. Não o fazes pelo efeito que causarás em Julieta, nem tampouco deves preocupar-te com sua sorte. Deves pensar em tua sorte apenas. Lembra-te como vagavas incrédulo pelo mundo das coisas sérias e nenhum rumo te convencia, porque sabias que a vida nada tinha a ver com aquilo tudo. O amor te foi oferecido então, como última das ilusões e encontraste enfim algo pelo qual valia vagar. Mas agora sabes que é ilusão também o amor e que de fato não há mais nada pelo que vagar. Queres volver a vagar agora que sabes que não há nada novo sob o sol e que os dias se repetirão estupidamente? Isso queres? Dia após dia, noites tristes e teu belo corpo sempre em detrimento e nada para sonhar...
_ Perdão – interrompeu um rosto desconhecido no meio de todos aqueles notáveis – assusta-te a solidão, caro colega? Não venha falar agora de solidão, esse belo e estúpido idílio. Já sabemos toda essa história de incomunicabilidade de egos vendados. Sabemos da solidão do amor, da alegria, da dor e do morrer. E daí? Isso não está em pauta.
_ É, não falemos de solidão, isso já é uma premissa. – concordou Henry Wotton com o consentimento de todos os outros. Voltaram a discutir sobre a sorte de Romeu, mas este já não mais ouvia. Decidiu então escrever uma carta a Julieta e depois veria o que fazer. Enquanto escrevia os outros continuavam a argumentar e gesticular, as vezes até lhe falavam, ao que respondia com algum gesto vazio. Quando terminou a carta percebeu que a melhor assinatura seria sua morte. Antes, porém, de que pudesse fazer qualquer coisa Lorde Henry Wotton tomou-lhe a carta e lendo-a disse ironicamente:
_ O que é isso? Uma carta para o amor perdido?
_ Deixe-me ver. – disse Schoupenhauer tomando a carta.
_ Sabes muito bem que este sonho somente tu o viveste. – repreendeu Lorde Henry Wotton. O que para ti eram momentos supremos para ela eram nada mais que momentos de prazer. Nada mais lhe despertarás que compaixão, no sentido de um observador comovido pela tristeza alheia. Jamais lograrás condolência, jamais compartilhará contigo essa dor.
_ Vamos, Romeu – corroborou Schoupenhauer passando a carta a Hemingway – bem sabes que não passa de uma patética tentativa de últimas palavras para deixar tua marca no estúpido mundo dos vivos.
_ Romeu, que ingênuo! – completou Hemingway – Sabes quão ridículas são as últimas palavras. As palavras medíocres do dia a dia são as únicas últimas palavras aceitáveis. É melhor morrer dizendo: Caralho, que dor! – com isso passou a carta a Thomas Hudson quem a leu entre alguns drinques. No final nada disse, apenas a entregou ao rosto desconhecido quem finalmente rasgou a carta. Todos consentiram e voltaram-se para Romeu. Este tomado de uma ira repentina expulsou a todos e sem a mínima cerimônia tomou o veneno.

Nenhum outro argumento, lógico ou ilógico, imoral, amoral ou moral provocador ou confortante ecoou entre aqueles cavalheiros surpresos a velar o corpo que jazia tranquilo depois de algumas não menos tranquilas convulsões. Mesmo os mais suicidas dentre eles foram tomados por um sentimento de covardia e vergonha. Tantas palavras perfeitas proferiram e nada podia comparar-se a morte silenciosa de Romeu. Todos se sentiram fracos diante da beleza patética daquela morte vulgar de causa vulgar. A simplicidade da sorte de Romeu parecia afrontar cada palavra ou frase bem talhada que se perdia num vácuo eterno entre ouvidos surdos. Romeu desiludira-se com tudo que lhe ensinaram, desde seu mais íntimo eu até alguma palavra amiga, vivera então um amor que lhe preenchera a vacuidade oriunda dessa falta de fé. Desiludira-se enfim com o amor e nada restava ou valia a pena. A morte, porém, que tão bem casou com o amor desde os primórdios dos romances era ainda um mito a se conhecer ou talvez não, mas a vida cansara-o. Cansara-o como quem se cansa de uma festa ou de um jogo, simplesmente o cansara, e digo isso sem nenhuma pretensão retórica. Sua morte sem rito e cerimônia era demasiada simples e não caberia em nenhuma arte digna e bela. Os homens em torno de Romeu ainda estupefatos e contrariados com essa simplicidade e falta de arte se retiram em silêncio.

O corpo foi encontrado poucas horas depois e Julieta foi imediatamente avisada. Várias pessoas rodeavam o cadáver quando Julieta chegou. Ao ver Romeu jazendo sobre o solo irregular, brotaram lágrimas sinceras de seus olhos, o que lhe causou grande alívio, pois durante todo o percurso até ali se torturava com a idéia de não conseguir chorar em frente aos espectadores ávidos por lágrimas. Eram lágrimas sinceras de compaixão, ou seja, lágrimas de alguém que observa a dor alheia. Da mesma forma que não conseguira compartilhar com Romeu o amor que este lhe tinha, tampouco podia compartilhar sua dor. Julieta que desconhecia a verdadeira razão da morte do rapaz, o atribuía, como todos os outros, a decepção amorosa que lhe proporcionara. Uma súbita raiva a tomou então, não entendia por que Romeu entendera tudo errado. Como pôde ter tomado uma aventura de verão por um amor intenso? Por que era tão cego e egoísta? Entre lágrimas ainda sinceras, porém de raiva agora e não mais de compaixão, notou que os espectadores ao seu redor exigiam mais e foram apenas esses olhares ávidos que a impediram de chutar aquele corpo sem vida. Foram aqueles olhares também que a dotaram de um sentimento de condolência por si mesma. Todos aqueles olhares se dirigiam a ela e não ao cadáver frio ao seu lado. Ela fora capaz de levar um homem a morte e ninguém poderia julgá-la culpada. Era, em verdade, vítima! Vítima de um encanto voraz, o qual tomara e matara Romeu. Mas ela não era responsável por seu encanto, apenas vítima. Essa auto-imagem a conduziu ao pranto mais intenso da noite e finalmente obteve a aprovações daqueles olhares ávidos. Agora eram não só lágrimas autênticas como de condolência de sua própria dor. Perante os aplausos frenéticos e ininterruptos daqueles espectadores satisfeitos acorreu-lhe a idéia de finalizar seu número com um beijo apaixonado no defunto. Sim, era necessário fazê-lo e não custava tanto. De joelhos ergueu a cabeça de Romeu pousando-a sobre seus seios e beijou, talvez como nunca dantes o fizera, a boca fria e sem vida, mas ainda cheia de veneno. Após o beijo delongado Julieta levantou-se e olhou todas aquelas pessoas que aos poucos se tornavam figuras baças. Teve ainda tempo de pensar que lograra tantas lágrimas que sua visão ficara comprometida e finalmente, para surpresa de todos aqueles olhares extasiados, sentiu-se mal e foi tomada por algumas convulsões até a morte. Ainda em meio ao delírio tentou últimas palavras que infelizmente ninguém ouvira.


Antes que qualquer alvoroço pudesse tomar forma, Shakespeare, quem acabara de chegar e presenciara apenas a cena final de Julieta tomou a palavra discursando em louvor e exaltação à coragem e ao amor daquele jovem e infeliz casal. Depois de várias e comoventes palavras prometeu ao público que destinaria a esses bravos e infelizes jovens uma obra que jamais lhes permitiria jazer sob o terrível peso do esquecimento.

3 comentários:

  1. Muito legal o conto, daqueles que persistem em continuar funcionando dentro da gente. Como é o termo literário..peraí...ressonante.
    Bj, dorme bem.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. O que é meio abóbora xuxuzinho? hehehehehe

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