Lembranças, esquecimentos ou invenções, pontos soltos como os nós dos cadarços do sapato desbastado do andarilho sem rumo. “Era una vez un gato montés que tenía la cola al revés y sabía hablar en inglés y decía yes, yes, yes, si querés te lo cuento otra vez. Sí." E assim continuariam eternamente ou até que a mãe se cansasse enquanto a neve acariciava a janela. Cruzada a fronteira, o idioma já é outro, faz calor, é carnaval, a casa, uma república emprestada durante o feriado, está vazia. Uma grande janela ou porta de vidro deixa entrar a luz que faz brilhar meus brinquedos espalhados pela pequena sala, ocupo-a como um gás. No chão também meus desenhos, herculanos heróis, vilões inclementes, casas e o silêncio que não exige idioma. Não vi meus pais chorarem.
Terminado o feriado, chega a negra, a faxineira negra que não nos conhecia, mas não estranha nossa presença. Nossos olhos verdes arregalam-se, jamais viramos uma negra em pessoa. Limpam ela e minha mãe, sem se comunicar, não se entendem. Não sei o que fizeram com meus brinquedos. Minha mãe lavava minha roupa e a escorria com toda sua força, a negra se aproxima, diz-lhe algo, incompreensível, toma a peça de sua mão e escorre com colossal força, devolvendo o pano seco. Olhos verdes arregalados.
O pai conseguiu casa, aluguel barato, ninguém quer aquela casa que carrega o fardo de um homicídio, o marido matou a mulher, defesa da honra, seria? Ninguém quer morar lá. Nós queremos. A casa não é grande, o terreno sim e tem um pé de jaca. Nado numa piscina vazia, ainda assim com bóias, meus avós, de visita, refrescam-se na piscina vazia do calor brasileiro. Há espaço para meus desenhos, enormes, são tantos heróis e vilões, uma guerra em traços pueris. Com meu capacete de plástico circulo pelo terreno livre na bicicleta, também minha irmã corre, já tem amigas e se entendem. Mas aparece a temível ameaça, uma gata rueira se instala em nosso jardim, não podemos sair, assusta-me. Meus pais decidem ficar com ela, para que não tenhamos medo. Um dia jogo-lhe um queijo, atrevo-me até a porta. Outro dia, assomo a cabeça ao lado de fora, noutro ainda já estou lá fora e a gata, sedutora, mia. Atrevo-me a tocá-la. É nossa gata. Gata fiel, nada especial, branca e manchas pretas, mas gata rueira agora é de casa e anda livre em nosso terreno. Anda livre em suas quatro patas, até que as de trás deixam de andar. Pobre gata arrasta-se em duas patas, mas continua lá, agora já tem crias. Arrasta-se pelo resto de sua não longa vida.
“A bola é bonita”, força-me minha mãe a repetir, com seu sotaque hispânico, enquanto lê no meu livro pré-escolar. Ela insiste, mas explico-lhe que não quero aprender a ler, que quero ser analfabeto. Ironia da vida, hoje somente sei escrever e jogar bola. Luzia, negra, faz todas minhas vontades, leva-me à escola no colo, porque não quero andar até lá. Na escola não me entendem, a professora não me deixa ir ao banheiro, “quiero ir al baño, le digo a la maestra y me dice que banho sólo en casa”.
Mudamos. Chegamos à rua oito, rua deitada no infinito. Lá estão Flávia e Maura, vários terrenos baldios e a rua tranquila. Plantamos uma árvore na frente da casa, um graveto imberbe ao sol, defende-se bem e cresce. Em casa, os gatos, vinte e se reproduzem. Mimi nasce no dia de meu aniversário, gata-cachorro, fiel e me entende, é a única que não chia quando o veterinário lhe aplica a vacina.
Flávia, Maura e eu, sentados na jangada no meio do furibundo mar, uma lona no jardim de grama. Eu lhes contava que não podíamos descer da jangada, pois quimeras, monstros, tubarões nos espreitavam, elas acreditavam e tremiam. Não saíam da lona. Eu saí, cobraram-me explicações, disse que eu podia, pois conhecia bem os caminhos e sabia safar-me das ameaças. Elas ficaram o resto da tarde, até que a ameaça da noite foi maior. Flávia e Maura me tratavam quando eu ficava doente, cobriam-me a testa com panos frios para baixar a febre. O mal-estar era compensado por aquele afago. Um dia as chamei, dizendo que tinha febre, cuidaram-me e só horas depois contei que era mentira. Riram e esbravejaram.
Na rua oito, rua deitada ao infinito, não passavam quase carros, era nossa. Jogávamos o futebol de portão, vôlei de portão, queimada, alerta. Pequeno e resvaladiço, jamais me acertavam. Chegou Cristiane. Maior que eu, maior que Flávia, Cristiane...
Estava decretado que Cristiane era minha namorada, sabiam todos na rua, Flávia também e a odiava. Certa vez quase até nos beijamos, ou nos beijamos? Quando já anoitecia, Cristiane me dizia que a esperasse, que entraria um minuto para tomar água. Eu sabia que não voltaria, mas esperava. Esperava sentado no meio da rua, em frente a sua casa, acariciando a cabeça de Toddy, vira-lata da rua, manso e guardião. Preto com manchas marrons, deitava-se a meu lado e esperávamos Cristiane. Sabíamos que ela não voltava, mas esperávamos a noite cair ou tombar sem dó sobre nossas cabeças. “Primeira estrela que eu vejo, se a Cristiane gosta de mim, que um cão lata ou uma porta se bata”; desesperado amante terá inventado este refrão, pois sempre há um cão latindo ou uma porta batendo, quando não? Talvez ela espreitasse pela cortina da sala e me visse esperando. Aí talvez me amasse.
A árvore cresceu, agora é nossa casa. Flávia, Maura, Igor, Cristiane, Caroline, eu, todos subíamos, mas ninguém chegava tão alto quanto eu, podia tocar o céu. E se o céu se afastava, subíamos em meu telhado. Pendurávamo-nos no portão, escalávamos o muro e chegávamos ao telhado. Paula, minha irmã, cresceu demais, pendurou-se na pequena pilastra sobre o muro e esta cedeu sobre sua cabeça. Foi só de raspão.
Chegaram Fabinho, Laura, Renato. Chegaram Léo e Tiago. As mobiletes, os tombos as cicatrizes. A rua oito, rua deitada ao infinito, deixou suas cicatrizes em todos nós. Pontos nos quatro cantos da sobrancelha. Cristiane, Caroline e Igor foram embora. Dor, pior das cicatrizes. Mas o futebol de rua, de campinho ficou mais competitivo, ninguém podia nos derrotar, a mim e ao Léo. Mas Léo e Tiago vão embora. Dor, cicatrizes. Fabinho, Renato e Laura vão embora... Vou embora, Flávia e Maura ficam. Dor e cicatrizes
A rua oito, rua deitada ao infinito, já não tem terrenos baldios. Passam mais carros, somos grandes, sabemos cruzar sem problemas, Toddy morreu. Também morreram Baixinho e a Baixinha. Fui embora e da rua oito, rua deitada ao infinito, partiu o andarilho sem rumo que agora se abaixa para amarrar melhor os cadarços.
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