Personagens
Conselheiro/Garçom
Mediador
Lorde Inglês Decaído
Francês irredutível
Oriental Zen
Latino
Negro/Mulher (representante de “minorias”)
Povo
Prefácio
Conselheiro/Garçom: Antes de começarmos este espetáculo, convém realizar algumas advertências. Em primeiro lugar, é mister esclarecer que este é um espetáculo extremamente verborrágico, especialmente em seu primeiro ato, visto ser este um vício, para não dizer falha, do autor. Mas rogo-vos que vos munais de paciência, pois nos atos subsequentes teremos ação propriamente dita para aqueles mais afeitos a esta que à retórica. Atenderemos a todos os gostos, garanto-vos, pois eu pessoalmente negociei com o autor para que isto ocorra. Haverá violência, sangue, quiçá uma violação, para que aqueles mais acostumados a uma dramaturgia alicerçada em perseguições de carros, balas zunindo, pontapés e socos, possam deleitar-se também e, prometo-vos, que haverá também cenas de nudez, visto que tais cenas são a esperança de muitos dos frequentadores do teatro. Da mesma forma, não se escapará demasiado da estrutura de uma narrativa tradicional, cujo primeiro ato trará a exposição da situação que conduzirá ao conflito do segundo ato para, enfim, solucionar-se no desfecho ou terceiro ato. Bem, sem mais delongas, faço saber que doravante serei um garçom e não mais farei advertências, a menos que se faça necessário no decorrer do espetáculo. Ab imo pectore, espero que vos deleiteis.
Cenário: Mesa redonda com cinco cadeiras. Os integrantes da mesa devem ignorar completamente a presença do público debatendo entre eles e de costas para a platéia.
Mediador: Hic et nunc. Estamos hoje aqui reunidos para dar início ao ciclo de debates Revoluções com os top five intelectuais do mundo inteiro ad hoc selecionados tendo como precípuo critério sua produção analítica acerca do tema que nos ocupa, a saber, os processos revolucionários na atualidade. Antes mesmo de começar e realizar uma breve apresentação dos integrantes – digo breve, pois certamente a fama os precede e dispensa maiores intróitos sobre sua exitosa trajetória acadêmica e profissional – gostaria de descrever a pauta deste encontro, cujo término, atrevo-me a dizer, ficará laureado ad perpetuam rei memoriam, traçando um verdadeiro divisor de eras. Neste ano em que se completam-se os 220 anos da revolução francesa, progenitora do estado moderno; 50 da cubana, gestora máxima dos mitos emancipatórios da atualidade e, infelizmente para o arredondamento matemático, 92 anos da revolução russa, berço da grande desilusão do os anos 90, podemos sentir no âmago desta grande sociedade global a incipiente ebulição da insatisfação com a ordem estabelecida, mostrando-se um corpo claramente cheto fuor, commodo dentro. Enfim, a pauta deste sui generis encontro resumir-se-ia na seguinte pergunta: Podemos hoje falar em revolução ou revoluções, referindo-se aos múltiplos movimentos de pressão para transformação social, dentro de um cenário marcado pelo individualismo e pela total indiferença em relação à dor alheia?
Lorde Inglês Decaído (ergue o braço): Permite-me um primeiro aparte, ilustríssimo colega Mediador?
Mediador: Claro, excelentíssimo Lorde Inglês Decaído, proceda.
Lorde Inglês Decaído: Obrigado. Se me sinto impelido a este precoce aparte, faço-o para esclarecimento de um termo indevidamente, em meu humilde parecer, utilizado em sua irretocável, com exceção do termo objeto deste aparte, exposição da pauta de nosso promissor debate. O termo empregado para descrever o difícil cenário que nos afronta, a saber, Individualismo, é no mínimo impreciso. Devo esclarecer que em meu limitado compreender (gesto de humildade) da situação atual, o cenário ao que o ilustríssimo colega se refere não está marcado pelo individualismo e sim pelo egoísmo. A distinção dos termos é necessária, e insistirei ad extremum neste ponto, pois se há algo que justamente não tem espaço nesta sociedade é o individualismo. O individualismo é a realização plena do indivíduo, de sua personalidade, de seu ser, não, evidentemente, por cima, da individualidade alheia, mas sua realização é condição sine qua non para uma convivência autêntica entre membros de uma comunidade. Em nossa sociedade, esta individualidade está plenamente anulada e sujeita à coletividade, à opinião pública, ao terceiro e pior de todos os tiranos, aquele que tiraniza o corpo e a alma, o POVO! A massa e a unanimidade! Cada indivíduo é hoje a reprodução exata de uma fórmula perfeitamente calculada por um sistema, maravilhosamente executada pela publicidade, pelos meios de comunicação, pelo cinema, pelos formadores de opinião. Recuso-me a aceitar em falar em individualismo em semelhante contexto. Sugiro, portanto, caso os ilustres colegas desta mesa estejam de pleno acordo, que substituamos o termo individualismo por egoísmo. E, para aqueles que ainda possam recalcitrar em distinguir os termos, tendo-os como sinônimos, lembro, que o individualismo é viver como se deseja, enquanto egoísmo é querer que os outros vivam como se deseja! Tenho dito.
Mediador: Penso não haver inconveniente em proceder a tal substituição. Alguém se opõe?
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam.
Mediador: Neste caso, permitam-me reformular o enunciado da pauta deste encontro: Podemos hoje falar em revolução ou revoluções, referindo-se aos múltiplos movimentos de pressão para transformação social, dentro de um cenário marcado pelo egoísmo e pela total indiferença em relação à dor alheia?
Francês irredutível (erguendo a mão): Peço, por gentileza, que se me conceda a palavra por um instante, antes de procedermos, pois, a exemplo do ilustríssimo colega Lorde Decaído Inglês, cuja notação fora assaz pertinente, tenho uma pequena, não obstante relevante, objeção. Tal pontilhismo refere-se justamente ao final de nossa, permito-me aqui fazê-la nossa com um espírito colaborativo, questão norteadora. Não julgo pertinente falar em indiferença perante à dor alheia e o que me preocupa em finalizar deste modo a pergunta são os dois termos empregados, a saber, dor e alheia. Primeiramente, julgo inadequado referir-se a uma marca específica de nossa sociedade como dor, visto que a dor remete prontamente à dor física, a qual nem sempre constitui o mote da revolta. Ad argumentandum tantum, se de um incômodo devemos falar, sugiro que o tratemos por sofrimento e, ejusdem farinae, peca também o termo alheia. Não se trata aqui de mensurar ou determinar quem sofre em nossa sociedade, quanto sofre, e como mitigar filantropicamente tal sofrimento. O sofrimento é a engrenagem mesma deste sistema que desconsidera o humano em sua lógica e, portanto, sujeita a todos nós, de todas as classes e meios a um comportamento inumano. Como no Panóptico de Bentham, todos estamos sob o forte controle do poder invisível e informe, rudis indigestaque moles. Bom, sem delongar-me mais, proponho que abandonemos o referido adjetivo e troquemos no enunciado "dor" por "sofrimento". A propósito, já que de martírio falamos, não seria demais, afinal o propósito que nos move tem um quê de colossal e requer algo pour boire, pois humanos somos, sede temos.
Mediador: Bem, se todos estiverem de acordo, proponho-me a refrasear a pergunta e, quanto ao requerimento do ilustre colega Francês irredutível, penso não haver nenhum inconveniente.
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam. Garçom sai para buscar bebidas, vinho, sucos, whisky, etc.
Mediador: Bom, neste caso, a nova pauta deve ser: Podemos hoje falar em revolução ou revoluções, referindo-se aos múltiplos movimentos de pressão para transformação social, dentro de um cenário marcado pelo egoísmo e pela total indiferença em relação ao sofrimento generalizado?
Garçom serve as bebidas.
Oriental Zen (erguendo delicadamente a mão): Perdão, rogo-vos, por também interromper o fluxo deste frutuoso momento, para expor uma inquietação que me preme o peito. Há no já enunciado um excedente que vislumbro ser um germe de discórdia. Apreciaria que se suprimisse o adjetivo “social" que sucede o termo transformação, que nada mais é que a substantivação do ato de transformar. Não há transformação social sem uma transformação individual e, embora suspeite, que alguns de meus nobres interlocutores ocidentais poderão questionar qual das duas transformações deveria primar, não julgo possível dissociar uma da outra, razão pela qual carece adjetivar o termo transformação que em si preserva sua unidade.
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam.
Francês irredutível: Não vejo problema na sugerida supressão, pois ampliaremos quantum sufficit este polêmico ponto. Contudo, antes de prosseguirmos, suplico que se atente ao fato de que beber quantum sufficit também poderá ser útil para motivar um locuente debate, mas somente se os sucos gástricos não acidarem o benevolente líquido por falta de uma atividade adequada. Sugiro que, com a devida temperança, acompanham-se as bebidas com ligeiros petiscos.
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam. Garçom sai para buscar petiscos.
Mediador: Aceitas as considerações do ilustre colega Oriental Zen, a nova pauta assim se lerá: Podemos hoje falar em revolução ou revoluções, referindo-se aos múltiplos movimentos de pressão para transformação, dentro de um cenário marcado pelo egoísmo e pela total indiferença em relação ao sofrimento generalizado?
Latino: Sinto-me moralmente compelido, mas também, à vontade ou ad libitum para pronunciar-me a respeito do enunciado que nos atém. Redunda, em meu pobre entender, ou incorre-se em um pleonasmo utilizar a conjunção alternativa “ou” para opor, ou no mínimo, duplicar o termo revolução a revoluções, visto que uma genuína transformação social, perdão, transformação requer uma ato singular, unificado e unificante que só se pode traduzir por revolução.
Francês irredutível (com a boca cheia): Discordo!
Latino: Permita-me concluir, contudo, caro colega, ad argumentandum tantum. Tenho certeza que a tempo podereis tirar-me da obscureza, mas, ainda assim, quisera desenvolver meu ponto.
Francês irredutível: Claro, prossiga.
Latino: Não é um ponto tão relevante se pensarmos na transformação individual, contudo, e neste aspecto, devo desculpar-me com o ilustríssimo colega Oriental Zen, pois sim é de notória significância o adjetivo social, é crucial pensar em um projeto único.
Francês irredutível: Sabemos, pela experiência histórica, o que provocaram os projetos únicos, opressões tirânicas, déspotas que se julgavam capazes de interpretar os anseios do coletivo e ignoravam todas as diferenças.
Latino: Sabemos, também, não obstante, que as diferenças serviram muito bem ao sistema como subterfúgio para fragmentar em pequenas lutas aquela que deveria ser a luta precípua capaz de abalar o alicerce da estrutura do sistema.
Francês irredutível: Desculpe-me, mas o que chamas de fragmentação, considero multiplicidade que contempla, outrossim, as diferentes demandas.
Latino: Estou de acordo, caro Francês irredutível, mas, ainda assim, é preciso ressaltar que ver a sociedade desta forma incorre em certos riscos de que diferença se traduza em desigualdade, que a “multiplicidade” se traduza em grupos incomunicáveis guerreando por seus interesses próprios apenas. Deve haver algum nexo capaz de entretecer os diferentes movimentos de pressão, caso contrário o sistema é capaz de cooptar todos e cada um deles.
Lorde Decaído Inglês: Permiti-me que interfira em vossa cada vez mais acalorada altercação.
Francês irredutível: Não se trata de altercação, é apenas um amigável esclarecimento conceitual, ad solemnitatem, necessário para o sadio andamento deste histórico encontro.
Latino: Exatamente, ilustre colega.
Lorde Inglês Decaído: Neste caso, obrigado, pois me sinto mais ad libitum para intervir em vosso amigável refinamento conceitual. Estou de acordo com o caro colega Francês irredutível que um projeto unificado de revolução corre o risco de sujeitar as diferenças ao coletivo, à norma, e, outrossim, inumar definitivamente o potencial de desenvolvimento do indivíduo. Contudo, é pertinente que deva estabelecer-se um nexo entre todos os movimentos de revolta, conforme assevera nosso ilustre colega Latino. A propósito, se me permitis um aparte, delicioso este queijo de cabra francês.
Latino: Sim, delicioso, é verdade.
Oriental Zen e Negro/Mulher concordam.
Francês irredutível: Obrigado.
Lorde Inglês Decaído: Destarte, prosseguindo com o refinamento conceitual, parece-me útil estabelecer como nexo ou critério de unificação dos múltiplos movimentos a opressão. O fator em comum é justamente o caráter de oprimido que assola cada um desses movimentos.
Francês irredutível: Há, não obstante, um importante impeditivo para utilização desse critério, ilustre colega. A linha que separa opressores de oprimidos é muito tênue e dinâmica, um mesmo grupo pode ter o papel de oprimido em um determinado contexto e de opressor em outro. A classe média, ad exemplum, é uma espécie de colchão amortecedor que oprime e é oprimido ao mesmo tempo. Como utilizar nesse sentido a opressão num sistema em que o próprio opressor inexiste e, ao mesmo tempo, é onipresente?
Latino: Além disto, é um critério muito laxo, que, embora contemple as diferenças, também possibilita enormes aberrações. Imaginemos que promovamos este encontro com o seguinte mote, encontrar os caminhos para um mundo melhor. Se não delinearmos certos critérios únicos para distinguir o que é um mundo melhor, abrimos um guarda-chuva para as maiores contradições. Ad exemplum, imaginemos que um grupo partidário do nazismo e fascismo se sinta oprimido por não poder expressar livremente suas ideias na sociedade ocidental atual e que, ao mesmo tempo, considere, segundo sua ideologia própria, que um mundo melhor implique o extermínio de judeus, negros, ciganos, árabes e qualquer raça não ariana, deveríamos convidá-lo para participar e debater conosco, segundo tal lato critério?
Agitação entre todos os integrantes.
Oriental Zen: Caros colegas, penso que podemos chegar a um consenso se abolirmos a conjunção alternativa “ou” e, em vez, de falar em revolução ou revoluções, podemos simplesmente optar pelo plural, pois teria a qualidade da ambiguidade de tratar-se de um conceito de amplitude histórica que contempla tanto os diversos processos revolucionários, fracassados ou não, ao longo da história como a possibilidade de incluir a multiplicidade de demandas atuais.
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam.
Oriental Zen: A propósito, devo acrescentar, ao aparte do ilustre colega Lorde Inglês Decaído, que este vinho é um verdadeiro deleite. (sacudindo a garrafa vazia)
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam. Garçom sai para buscar mais vinho.
Mediador: Bem, se não há mais objeções, podemos reformular nossa pauta do seguinte modo: Podemos hoje falar em revoluções, referindo-se aos múltiplos movimentos de pressão para transformação, dentro de um cenário marcado pelo egoísmo e pela total indiferença em relação ao sofrimento generalizado?
Latino mostra-se algo azedo, mas face à posição do Francês irredutível, não ouso prolongar o debate.
Mediador: Alguma outra objeção?
Todos olham para o Negro/Mulher com um olhar algo intimidador e este apenas gesticula que nada tem a acrescentar.
Mediador: Neste caso, exare-se a pauta e procedamos com as apresentações.
Os integrantes aplaudem exultantes ao enunciado final da pauta.
Francês irredutível: Desculpe-me por uma nova intervenção, mas antes de prosseguirmos com as apresentações, sugiro que façamos um pequeno intervalo, visto que não fora pouco o dispêndio mental e, por que não físico, requerido até o momento. Será útil para o sadio andamento da sessão, um justo e merecido descanso para um café, um cigarro e um pouco de ar.
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam.
Mediador: Estaria de acordo, mas é preciso consultar com nossos apoiadores para saber como estamos de tempo.
Lorde Inglês Decaído: Se for o caso, proponho que eliminemos as apresentações. Afinal, de minha parte, sem vaidade alguma, prefiro que minhas ideias falem por mim, já que homens de ideias somos e os homens de ideias não devem desgastar-se com falar de homens, mas sim de ideias.
Francês irredutível: Estou de acordo. Não me incomodo e permanecer humildemente anônimo ante minhas próprias ideias.
Negro/Mulher: Para além disso, não me incluo, pois recomenda a etiqueta e a modéstia, mas como bem aclarou o ilustre mediador, vossa fama vos precede e dispensa maiores intróitos.
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam.
Mediador: Neste caso, estando todos de acordo, eliminemos as apresentações e procedamos a um intervalo de não mais que quinze minutos.
Integrantes se levantam e afastam para o fundo do palco. Garçom se dirige ao público como conselheiro novamente.
Conselheiro/Garçom: Desculpai-me por esta imprevista pausa, mas há quem alegue que o trabalho, a faina intelectual exaure tanto, se não mais, que o labor físico e braçal. Peço-vos que compreendais, portanto, a humana necessidade de um pequeno descanso de nossos heróis. Claro está que os quinze minutos referidos pelo mediador não serão efetivamente quinze e mediante algum elipse ou passagem de tempo o autor nos conduzirá em tempo à prometida e tão esperada ação. Para os mais mórbidos, violência e sangue, para os mais libidinosos, nudez e sexo. Mas, paciência, rogo-vos, tudo a seu tempo.
Fim do primeiro ato
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