terça-feira, 24 de março de 2009

Lado oculto da loucura - 1994 (terceiro esquete)

Este esquete eu odeio, hahahaha. Mas os atores que leram sempre quiseram montar, parece que agrada.

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O Lado Oculto da Loucura




Personagens:

Rapaz (Real)
Rapaz (Imagem)
Irmão
Mãe
Pai
Irmã
Enfermeiros


Cena I

O personagem, rapaz, o Real, com pijama e chinelo entra no palco calmamente, dá uma volta no recinto até se deparar com um espelho. Do outro lado do espelho se encontra o outro personagem com os mesmos trajes e penteado, a Imagem. Real se aproxima ao espelho e se dirige a imagem:

Real: Boa noite.
(se olha no espelho e a imagem copia-lhe os movimentos)

Você hoje está parcial ou imparcial?
(espera resposta que não acontece)

Bem, não importa!
(decepcionado)

Posso fazer uma confissão?
(tímido)

Não! (repreendendo-se) uma confissão não! Quero recitar-te um poema.
(se concentra, tira um papel de um bolso e começa a ler)

"Naqueles pastos,
tão longínquos de terra ossuda,
que mal alcanço os rastros,
vivia uma vaca tetuda
e....."

Nesse momento imagem pára de copiar os movimentos do Real e começa a rir

Real: (irritado) Por que rides? Meu poema não é engraçado!!

Imagem continua rindo

Real: (grita) Pare!!!!

Real: Quer saber de uma? em meus poemas não existem palavras proibidas.. nem ligo para pontuação. Você não manda na minha gramática.

Imagem continua rindo

Real: Eu disse tetuda, e daí?

Imagem: Ohhhh!
(Imagem fica séria)

Real: ...e olha que eu disse tetúda, com acento na letra "u".

(interrompe repentinamente:)

Real: Minha Santa Antônia!!!!

(Imagem olha como perguntando: O que foi?)

Real: Vejo futuro em teu rosto... Aposto que já desenhastes toda tua vida... Já sei, queres ser Doutor.

Imagem: Do que?

Real: Não sei... Mas queres merecer esta nomeação.

Imagem: E Família, tem?

Real: Ôh! Boa família. Uma mulher
prendadíssima! Cozinha e lava muito bem e...

Imagem: Mas só isso?

Real: Não, se diverte também...

Imagem: (interrompendo) Já sei, conversa
com as amigas enquanto o frango descongela.

Real: E filhos?

Imagem: Ora, todo casamento tem filhos...

Real: ...vovó e vovô vieram no sábado

Imagem: Meu Deus! e se morrer amanhã?...

Real: Ninguém te chamará de Doutor!

Imagem: Não! não pode ser! mas, e o futuro? Pra onde vai?

Real: Ah, o futuro (desdém) ora, o futuro eu vejo amanhã, o futuro é só a escuridão construída com a penumbra do passado. E nem agarras o presente....

Imagem: Maldito tempo! Só traz rugas...

Real: ...e não pára!

Imagem: Não pára? Quem disse que não pára e que sabes tu sobre o tempo?

Real: (fofocando) Por falar em tempo o outro dia, um rapaz, conhecido de uma tia do amigo de um primo do vizinho da irmã do porteiro do prédio, foi tomar uma injeção, acho que era para furúnculos, teve uma reação alérgica e...morreu! (surpreso) Nossa, ele morreu e eu o conhecia, quer dizer, indiretamente, pois eu conheço o porteiro.

Imagem: (repreensão) Que mania essa a tua de querer se aproximar da desgraça!

Real: Mas também, quem não quer?

Imagem: A desgraça é charmosa e atrativa, o cheiro de sofrimento atrai as pessoas.

Imagem: (nojo e morbidez) Elas buscam sempre o prazer no sangue humano.

Imagem: Por isso ouvimos aquela senhora gorda dizer satisfeita: "...e eu conhecia a vítima, pobre morreu..." e não apenas "eu conheço João, ele está vivo...".

Real: Como a vida é engraçada, né?

Imagem: Vida? Que sabes tu sobre a vida? Existe a vida?

Real: Bem, a tua eu não sei, mas a minha eu tenho certeeeza! AB-SO-LU-TA!!

Imagem: Como?

Real: Ora essa, sinto dor e prazer, logoexisto. (menos convicto) Sim, existo.

Imagem: Será? E se só existir dor e prazer?

Real: (incerto) Não! Não pode ser! (convicto)Morto eu não estou. Lógico que não! Nem sei se existe vida após a morte. Na verdade, nem sei o que vem depois da morte.

Imagem: Ah, mas se não sabes o que vem depois da morte, como sabes se já não passaste a morte?

Real: Cala-te! tu es apenas a minha imagem!

Imagem: Ou tu a minha?

Real: Quem sente dor e prazer sou eu e não você.

Imagem: E como podes prová-lo para os outros que não sentem nem tua dor nem teu prazer.

Real: Cala-te! Eu existo e você não e ponto final!

Imagem: A existência é só uma questão de ângulos.

Real: (grita) Cala-te!

(Imagem congela)

Real: (confessando) Sabe, do mesmo jeito que a morte surge no meio da vida, a tristeza de repente surge no meio da felicidade. Agora pouco eu estava feliz e...
(pensa um pouco...)

Real: Por que era mesmo que eu estava feliz?

Real: Ah, já sei... por que ia recitar um poema.

Real: (entusiasmado) Sabe, eu quero ser poeta ou escritor. Se não der, quero ser presidente. Assim algum dia posso ter meu nome citado por um entusiasmado professor de Português.

Real: (imita professor entusiasmado) "... foi um poeta maldito que se enquadra no estilo normalmente encontrado no fim de século e...."

Real: ... ou então presidente, para ser citado por um professor de história, uma professora chata, pesada, quase cinza.

Real: (imita professora) "...este foi o primeiro presidente eleito no..."

Imagem: Mas se fores presidente o que farás?

Real: Ah, Não sei! Cada pergunta!

Real: Mas também que importa o feitio, quero apenas deixar um nome quando o corpo já for cinzas.

Real: Cinzas como aquelas que meu irmão deixa pelo caminho.

Real: (como criança enciumada) Ele e aquele seu cigarro cínico.

Neste momento aparece o irmão, bem trajado e fica apenas fumando no canto do palco

Meu irmão é bem sucedido.
(orgulhoso)

Até se diz feliz. (pausa) É, acho que ele é.

Ele me acha louco. Diz que digo coisas sem sentido. Pode?

Deve ser porque não falo de dinheiro.
(irônico)

E diz que não tem dúvidas existenciais.
(duvidando)

Imagem: Não tem?

Real: Não.... ele reza toda noite ao lado da cama.

Coro: ...Ave Maria cheia de graça....

Real: Acho que assim ele tranca todas a dúvidas existenciais debaixo da cama.

Engraçado... eu nunca tranquei...

...talvez por isso me ache louco.

Irmão: (para Imagem) Oi, mano! Ainda de pijama! Eles já estão por chegar. Você tem que ir lá no... você sabe.

Real congela

Imagem: Você é parcial ou imparcial?

Irmão: Por que sempre perguntas isso?

Imagem: Por nada... só pra saber se comes as imagens cruas ou as cozinhas em algum pré-conceito.

Irmão olha com desprezo e sem entender. Há o barulho de alguém batendo na porta. Irmão manda entrar e entram dois enfermeiros

Imagem: Vocês são parciais ou imparciais?
(enfermeiros ignoram)

Irmão: Não liga não, vocês sabem, né? Maluco é maluco.

Enfermeiros colocam camisa de força na Imagem, que de início resiste, mas depois se entrega. Quando terminam de colocá-la todos congelam

Real: A existência é uma questão de ângulos.....

Outros descongelam e vão saindo. Enquanto Imagem vai se afastando, Real vai caindo, chegando ao chão quando Imagem sai do palco. Luzes se apagam


Cena II

Imagem acorda em recinto branco, trajando um pijama branco, que apresenta apenas uma cama de lençóis brancos. As luzes estão oscilantes e fracas. Ele aparenta estar dopado e fala manso

Imagem: As paredes são brancas. Todas brancas.
(olhando tudo ao redor)

Os lençóis também.
(fala calmo)

O pijama também. (pausa)
Branco!! Branco! Branco. Branco...
(num decrescendo)

Branco... como sentimento de louco.

Será que as paredes são brancas por causa dos sentimentos?
Ou os sentimentos são brancos devido as paredes?

Responda!
(gritando)

Espelho! Onde está o espelho? (desespero) Preciso de um espelho... Para me torturar com minha imagem.
(calmo novamente)

Branco... Branco. Branco! Branco!!
(num crescendo)

(Luzes brancas ficam fortes)

Ah! Agora eu me lembro, nunca gostei de branco!
Branco só me esvazia a cabeça.

Um só ponto preto, ou um espelho! Por favor!
(implorando)

Ah! Um relógio na parede branca. Um relógio que não marca horas, nem minutos. Só vazios. Não sei, vários vazios, não sei exatamente quantos, nunca soube ler relógio de ponteiros.

Isso me lembra um poema.

De quem mesmo?

Não me lembro o nome...

Mas também, que droga, não vou pagar direitos autorais.

Ninguém, ninguém mesmo privatiza as palavras... nem os sentimentos.

Bem, o poema é o seguinte:

"Quando o sol nasce
Na moderna era do nada
ilumina as cabeças
vazias de idéias
que criam best-sellers
Páginas em branco
Sociedade moderna
Sociedade eterna
Sociedade externa"

Não entendi.
O que ele quis dizer?

Minha cabeça não é vazia!
(revoltado)

Ou será que é?
(indeciso)

Espelho! Preciso de um espelho!

Já sei! Eles me puseram aqui porque dizem que sou louco...

...que falo coisas sem sentido. Deve ser porque não falo em sucesso.

Mas agora estou preso aqui!

E não vão me tirar daqui...
(sofrendo)

Nem vão lembrar de mim... ninguém!

Também, o que sou?

Apenas um Homo sapiens com gênero, espécie, filo, reino e sei lá mais o que. Quem nunca sonhou em ser algo mais? Mas não há nada mais.

Acho que a única diferença é ser tão pouco e ainda ter que sabê-lo.

Apenas nasci, cresci, reproduzirei, envelhecerei e morrerei.
(enfatiza o morrerei)

Que boa idéia a morte.
Que idiotice nascer.

É isso mesmo...

Por isso quando nasce mais uma vitima, nasce chorando.

Chorando no meio de sorrisos. Sorrisos sádicos.

E quando morre todos choram, menos o corpo que já não ri, nem chora.

Mas estou preso agora e sem espelho.
(queixoso)

Só me resta morrer.

É isso vou me suicidar.
(convicto e preparando-se)

Não!!
(repreensão)

Existem dois tipos de pessoas suicidas:

Os impacientes e os curiosos.

Os impacientes são aqueles que não agüentam ficar na sala de espera da morte.

Já os curiosos são aqueles que não agüentam a curiosidade por ver o que há por trás da porta no fim da sala de espera.

Massss, eu não sou nem curioso, nem impaciente o suficiente.

E dizem que sou louco...

Eu, logo eu que sempre quis ser tão normal.

Dizem que digo coisas sem sentido. Deve ser porque não falo em dinheiro.

Vejo o relógio novamente.
(olhando ao redor)

Mas só marca vazios.
Que horas são, meu Deus?

Horas! Agora eu me lembro...

...eu sempre quis saber que horas eram. Sempre mesmo.

Sempre tive fascinação por relógios.

Devia ser para saber quantas horas já gastara e quantas me restavam.

Hora da janta. Hora de dormir. Hora do almoço, mas não tenho fome, Não importa é hora do sono.

Sempre quis ter controle sobre o tempo. Sempre lhe dei nomes.

Que tolo...

Porta se abre e entra enfermeiro em cena

Enfermeiro: É hora de dormir.
(enfatiza a "hora")

Enfermeiro prepara injeção, aplica em Imagem e sai. Imagem vai se deitando, junto com um barulho crescente de um tic-tac de um relógio.

Cena III

Imagem está sentado à uma mesa com a janta e mais quatro pessoas: Mãe, Pai, Irmã e Irmão. A cena começa com cada personagem falando suas falas repetidamente, sem nenhuma entonação especial. Não há comunicação entre as pessoas

Irmã: Passa o sal.

Mãe: Como está o arroz?

Irmão: Viu o jogo?

Pai: Um pouco cru.

Imagem: Que horas são?

continuam repetindo as falas sem importância de ordem. De repente Imagem pára e todos continuam repetindo suas falas.

Imagem: Basta... Basta. Basta! Basta!!
(Num crescendo)

Imagem: Não quero mais saber que horas são!

Todos se surpreendem e continuam falando suas respectivas falas, mas agora com diferentes entonações.

Irmão: Oh, viu o jogo?
(surpreso)

Irmã: Passe o sal!
(assustada)

Mãe: Como está o arroz?
(temerosa)

Pai: Um pouco cru.
(tentando pôr ordem)

Imagem: Não, não quero mais saber que horas são!

Todos os outros continuam a falar suas falas num tom mais baixo e com a cabeça abaixada

Imagem: Que maldição! Todos sempre são tão iguais.

Pensam que são inéditos, imprevisíveis...
Imprevisíveis, coisa nenhuma.
Mais um rosto no meio de milhões.
Sempre tão iguais.
Sempre o sal, o jogo, ou sei lá o que...

Lembro-me que também já usufrui do luxo de pensar ser diferente.

Até minhas feições cria diferentes e era feliz.

E na verdade obedecia as leis da igualdade.

Tão previsível e que horas seriam?

Basta! me lembro que foi aos dezoito que percebi que a minha originalidade não era real.

Saí do centro do mundo

... e me senti periférico.

Me senti desprotegido... normalmente desprotegido, estavam todos desprotegidos.

Caíra então o primeiro de tantos mitos que estariam por cair.

Talvez a vida seja feita de mitos e a morte seja o esgotamento dos mitos.

Caíra o mito de ser original.

Parei então de perguntar as horas.

E passaram a me chamar de louco.

Louco? Deve ser porque não falava em dinheiro.

E quando o médico deu o diagnóstico de misericórdia, aquela vizinha com cara de cadeira lamentava:

"Oh! Um rapaz tão bom. Quem imaginaria tal futuro para aquele passado."
(imitando vizinha)

Maldito lamento!

Só porque não fui forte o suficiente para agüentar ver cair o mito.

Ou melhor, fraco o necessário para não perceber a queda.

(A família sai.)

Cena IV

Sim, os outros que são fracos. Eu sou forte.

Mas, agora eu estou aqui e os fracos lá fora.

Não sei se devo chamar isso de injustiça ou erro de Deus.

Se existe Deus.

Sim, porque Deus existe só para alguns.

Quando sai do campo o jogador vitorioso dizendo graças a Deus, onde está o Deus dos onze derrotados?

Ou então Deus é a muleta que todos recorrem quando têm medo.

Eu não sei. A questão é que eu estou aqui e os fracos lá fora.

Aparece o Real andando devagar até se juntar à Imagem.

Imagem: Não há lugar para os fortes.

Real: Mesmo contrariando Darwin

Imagem: Só os fracos sobrevivem.

Real: Quero voltar a ser fraco.

Imagem: Mas não posso!

Real: Querem me sedar.

Imagem: Porque dizem que sou louco.

Real: O meu último mito querem esgotar.

Imagem: E de mim fazem tão pouco.

Real: Mas resistirei.

Imagem: E a porta no fim da sala de espera...

Real: Sem mais temer a morte...

Imagem: Queria ser poeta.

Real: Ou presidente.

Imagem: Nenhuma outra meta.

Real: Apenas marcar meu nome para sempre.

Imagem: O máximo que agora posso lograr.

Real: É alguém lendo o meu túmulo.

Imagem: Para minhas datas reparar.

Real: A vida após a morte se resume a datas.

Imagem: Em 1830 nasceu.

Real: Em 1851 morreu.

Imagem: A existência acaba com ela própria.

Real: Sem persitir nem nas memórias

Imagem: que o tempo há de apagar.

Real: Eu agora morrerei.

Imagem: E ninguém jamais há de notar.

Os dois se abraçam e vão caindo junta e lentamente.

FIM

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