O Turista
Personagens:
Turista
Guarda
Jornaleiro
Sábio
Secretária
Felicidade
(Pecado / Ascetismo)
Cenário: Rua de cidadezinha, policial parado na esquina, passa por ele turista concentrado a olhar um mapa. Está nitidamente perdido. Aproxima-se então do oficial e pergunta:
Turista: Por favor o senhor poderia me informar onde fica a felicidade?
Guarda: Olha, eu não sei muito bem não, mas o senhor anda mais um quarteirão depois vira à direita, aí o senhor vai reto toda a vida até encontrar uma banca de jornal. O jornaleiro, o seu Antônio, talvez possa lhe informar.
Turista: Obrigado!
Turista faz percurso indicado pelo guarda e finalmente chega à banca, onde é atendido por velho com barba mal feita e roupas descuidadas.
Turista: Boa tarde!
Jornaleiro: ...arde!
Turista: O senhor poderia me informar onde fica a felicidade?
Jornaleiro: A felicidade!?!
Turista: Pois é.
Jornaleiro: Pois pergunto, o senhor sabe o que é a felicidade? (silêncio) A felicidade é um produto que todo mundo vende em qualquer esquina.
Turista: Ah, no Shopping?
Jornaleiro: A felicidade se inventa. Inventa-se que a felicidade é andar nas montanhas entre cachoeiras com sapatos Kildare. Nós compramos os malditos sapatos e vamos para as montanhas. Lá nada se parece com o comercial. Tem os mosquitos, aquela dor de barriga e depois aquela vontade de cagar... A mulher ao seu lado em nada se parece à moça do comercial, além do que, seu estômago também ronca...
Turista: O senhor sabe ou não sabe onde fica a felicidade?
Jornaleiro: Mesmo assim a gente acredita estar feliz, então realmente está. Mas aí se contabilizarmos cada dorzinha insignificante, cada frustração e nos questionarmos quão felizes podemos estar, veremos então que o sofrimento é a regra e não a exceção. Os prazeres, sempre efêmeros e que na vida podem ser contados nas mãos, são as verdadeiras exceções.
Turista: Mas aqui no mapa diz...
Jornaleiro: (interrompendo) E ainda há os que esperam uma sobremesa divina depois deste jantar amargo. Não percebem que caminhamos para o vazio numa subida íngreme, com um sol escaldante nas costas. Somos nós, meu jovem, que tornamos a subida ainda pior.
Turista: Bem, muito obrigado.
Jornaleiro: Espere, tenho mais algumas palavras para lhe dizer.
Turista: Obrigado, mas realmente preciso encontrar a felicidade.
Jornaleiro: Bem, nesse caso talvez o sábio possa ajudá-lo. O senhor o encontrará no fim do Rio que sobe.
Turista anda mais um pouco até encontrar Rio que sobe, seguindo-o até o final onde encontra o sábio.
Turista: Com licença. O jornaleiro me disse que talvez o senhor pudesse me ajudar. O senhor sabe onde fica a felicidade?
Sábio: (Confirma com a cabeça, pede que o turista se sente, se prepara para um ensinamento e finalmente proclama:) A felicidade encontrarás na próxima quadra à esquerda.
Turista: Obrigado!
Turista anda mais um quarteirão e finalmente chega à Felicidade. É atendido por secretária antipática.
Secretária: Pois não?
Turista: Eu gostaria de ver a Felicidade.
Secretária: Tem hora marcada?
Turista: Não.
Secretária: Pois vai ter que pegar a senha na portaria.
Turista: Não dá para eu entrar? É rapidinho..
Secretária: Não vai dar não, viu bem. Porque se eu abrir exceção para você, tenho que abrir para todos.
Turista sai e volta com uma senha. Secretária olha a senha.
Secretária: (formal e impessoalmente) Um!
Turista: Sou eu. Posso entrar?
Secretária: Pode.
Turista entra no consultório e se depara com Felicidade: ser de duas cabeças: Pecado e Ascetismo.
Felicidade: Nós somos a felicidade.
Pecado: Eu sou o Pecado. Vivo bem, nenhum momento de prazer resvala entre meus dedos, e não temo punição alguma, pois sei que nada sucede a morte. Sei também que o certo e o errado é o Homem que determina e a decisão de nenhum homem vale mais que a minha, e a minha dita que o prazer é o correto.
Ascetismo: Sim, mas bem que nas horas de fraqueza és tomado pelas garras da consciência de todos os homens, esses mesmos cuja decisão desprezas. Além do que se estiveres errado queimarás nas chamas do inferno para sempre. Já eu, sempre estou em paz com a consciência de todos os homens e certamente colherei os frutos celestiais por toda a eternidade.
Pecado: Todavia, se a eternidade não existir e tudo que a morte trouxer for o pó da decomposição terás desperdiçado toda a vida em vão. Foder-te-ás. É como ter apenas um cartucho e gastar toda a munição em latas. Além disso, podes estar em paz com a consciência de todos os homens, mas quão em paz estarás com teus próprios apetites? Sim, esses que tanto reprimes!
Ascetismo: Vamos! O meu maior apetite é pela calma ou paz mental e esse eu sacio.
Pecado: Mentira, dirás acaso que a dúvida jamais carcome tua fé? E ainda, a paz sexual é o maior dos apetites; ou negarás isto também?
Ascetismo: Claro que nego, não existe paz sexual, apenas distúrbios sexuais, e estes podem ser aplacados pela paz mental.
Turista: (ligeiramente irritado) Com licença! Afinal, o que é a Felicidade?
Felicidade: (os dois) Disso se trata, deves escolher um de nós.
Turista: (extremamente irritado) Porra, que merda de felicidade é essa que eu devo escolher? Dêem-me logo o amor, a longevidade e o caralho à quatro!
Felicidade: (rindo histericamente) Amor? Longevidade? (mais risos) E o que isso tudo tem a ver com a Felicidade? (mais risos)
Turista vai embora irritado, enquanto Pecado e Ascetismo se beijam calorosamente.
FIM
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