terça-feira, 31 de março de 2009

O PEIXE E O ACASO

Sentei-me à mesa e pedi ao garçom uma cerveja. Enquanto a buscava ouvi que na mesa ao lado falavam de pescaria, assunto este que me interessou por estar lendo um livro de Hemingway nesse então.
_ Quinze quilos pesava o peixe. Um dourado de uns sessenta centímetros. – dizia o senhor que aparentava uns cinqüenta anos.
O garçom trouxe a cerveja e perguntou-me se desejaria comer algo, ao que respondi rapidamente que talvez mais tarde pediria, voltando a dirigir a atenção à conversa da mesa ao lado.
_ Se eu acreditasse em Deus, diria que foi Ele quem o colocou lá para que eu o pescasse. - continuou o senhor de cinqüenta anos.
_ Aquele peixe estava ali para você. É óbvio. Eu não acredito em acaso. Quantos anos teria o peixe? Deveria ter uns quinze. – disse então o outro senhor aparentemente mais jovem. Causou-me graça que especulasse sobre a idade do peixe. Nunca pensara que um peixe pudesse ter idade. Surpreendeu-me o fato de nunca tê-lo pensado. Nesse momento o rapaz que aparentava ter uns vinte anos fez sua primeira interferência e como num salto repentino dirigiu-se ao senhor mais jovem:
_ Como assim? O acaso não existe então? O peixe viveu toda a vida e estava ali, predestinado a ser pescado com quinze anos? - inquiriu desafiadora e ironicamente.
_ Não sei. Apenas sei que aquele peixe estava ali para ele. – contestou então o senhor mais novo.
_ Se eu acreditasse em Deus, eu diria que foi Ele quem o colocou ali para que eu o pescasse. Não sei se é o acaso ou não, mas eu mereci esse peixão. Todos esses anos eu investi muito na pescaria...
_ De fato, se você acha que mereceu a porra do peixe então não acredita em acaso. Pois o acaso não tem lógica, e mérito é uma lógica. Se depender do acaso, foda-se se você o mereceu ou não. Não tem lógica nenhuma, o peixe fisgou a isca e se fodeu! – replicou o rapaz numa exaltação que lhe fazia o rosto tão cômico que não pude deixar de rir.
_ Aquele peixe devia ter uns quinze anos... Caramba, quinze anos e nunca foi fisgado antes. Estava te esperando.
Olhei então para o rapaz que tomou outro gole da cerveja e se preparou para continuar a advogar em favor do acaso:
_ Que é isso? O problema é que o acaso assusta os homens. Ninguém quer ver o acaso de frente e quem o vê caga e se mata. Por isso tantos empreendimentos. Todos os empreendimentos culturais, sociais ou o que for visam esconder a merda do acaso... O cotidiano. Taí, o cotidiano. O cotidiano é uma forma de se tentar estabelecer ordem aos nossos atos e... Não, melhor a religião. A religião é melhor exemplo da tentativa de estabelecer lógica ao acaso. A reza é como comprar algo. É claro que não é a única função da religião no íntimo dos homens, mas é uma das principais. O arrependimento dos pecados...
Nesse momento o senhor mais velho voltou a interromper:
_ É... se eu fosse religioso eu diria que ter pescado esse peixe foi uma dádiva divina. Mas eu mereci.
_ Mereceu mesmo, estava escrito. – completou o outro senhor para desespero do rapaz cujo rosto já era propriamente uma caricatura. No meio da exaltação buscou um argumento de misericórdia:
_ Taí, você fala que mereceu a merda do peixe. Dizer isso é uma forma de estabelecer uma ordem ao acaso. Eu faço tal coisa e tal outra acontece; eu rezo quinze ave-marias e pesco melhor! É como religião. No final das contas você é um religioso enrustido porque... – o rapaz continuou proferindo seu discurso, afogando-se em gestos caricaturais, mas aquela apologia do peixe e acaso já estava me cansando, portanto desviei minha atenção para uma menininha que brincava na frente do bar com um molequinho.
Brincavam com pressa, como aproveitando um intervalo, até serem interrompidos pelo grito da moça do balcão que aos gritos chamava a filha. A menininha acorreu rapidamente à mãe que lhe disse:
_ Betinha, vai até o mercadinho, filha, e compra...
_ Não manda o moleque que é mais rápido. – interrompeu a velha que a ajudava na cozinha.
_ É, vai lá, Carlinhos, traz pra tia um saco de farinha de rosca. Farinha de ros ca, é só pedir para o moço. Dois reais dá.
A menininha ao ver-se substituída pelo moleque transtornou-se e pediu chorosa para ir, ao que a mãe respondeu com um seco não. Diante da nova negativa, Betinha pôs-se a correr em volta do bar freneticamente até encontrar-se de novo detrás do balcão, agarrando-se a saia da mãe e esperneando. A mãe então gritou que fosse para o castigo e não saísse de lá. Betinha foi, mas sem deixar de chorar em frenesi.
_ Pode? Veio me bater só porque mandei o Carlinhos. Também, pus de castigo! – queixou-se à velha que aprovou tudo. O garçom aproximou-se e sob meu assentimento trouxe outra garrafa. Servi-me e bebi um gole à pobre Betinha. Que habilidade a mais poderia ter o Carlinhos. Os dois de pé descalços eram iguais naquela idade. Só depois de alguns anos de castigo no quarto, é que Betinha se tornaria de fato mais leiga e atrofiada. Com certeza Betinha compraria a farinha de rosca com a mesma eficácia e talvez até fosse mais prolixa. Nesse momento Betinha voltou ao balcão e a mãe lhe perguntou:
_ Por que você saiu do castigo?
_ É que você tinha pedido pra mim, aí você pediu pro Carlinhos. – respondeu chorosa a menina.
Ponto! Era o argumento irrefutável, não haveria réplica à qual a mãe pudesse recorrer. Ninguém poderia refutar. Betinha fora traída e que se lhe podia dizer? “Carlinhos é melhor que você, minha filha”? Poderia a mãe sentenciar tal frase? Isso seria apenas adiantar em algumas jogadas o cheque-mate de Betinha que apenas diria: “E por quê?”. Não haveria então outra resposta. Talvez a mãe a sentasse no colo e lhe dissesse: “Minha filha, existem na mulher os cromossomos XX que...” Nisso certamente, saltaria furioso o jovem advogado do acaso da mesa ao lado gritando quase aos prantos que aquela senhora unia indiscriminadamente elementos culturais aos naturais, contribuindo para uma educação inadequada para a menina. Discutiriam horas sobre a natureza, a cultura, o acaso e o peixe. Betinha cansada de todo aquele palavreado desistiria de qualquer resposta concreta e voltaria conformada para o quarto. Enfim, restava à mãe que nada sabia de cromossomos ou elementos culturais, grunhir um derrotado:
_ Vai, minha filha, vai brincar. – ao que a filha respondeu com um sorriso vitoriosa, mas que conservava, e provavelmente para sempre, aquela mágoa por Carlinhos compras farinha de rosca melhor.
Era evidente que já bebera bastante e a fome começava a se manifestar. Chamei o garçom e pedi um sanduíche de frango. Enquanto o esperava, decidi retornar a atenção à mesa dos dois senhores e do jovem, que já não falavam do peixe e do acaso.
_ O capitalismo... – disse o mais velho dando uma pausa para um gole – o capitalismo tem um dinamismo próprio, desde seus primórdios, que deslumbra o homem. O homem feudal fugiu para as cidades atraído por esse dinamismo. Vocês devem estar se perguntando por que esse dinamismo não o atraiu antes. Porque tinha os dogmas. Os dogmas freiam o homem. Uma vez enfraquecidos os dogmas, o homem se aventura nesse dinamismo. No feudalismo não é só o poder do senhor que é abalado, mas também os dogmas religiosos.
_ Espera aí! Você está dizendo que essa atração do homem por esse dinamismo é inato. – interpelou o jovem defensor do acaso que com um simples esboço de afirmativa por parte de seu interlocutor, continuou – Mas isso é ridículo. A atração do homem pelo dinamismo é uma construção social. A própria noção de dinamismo é uma construção cultural. O capitalismo não encontrou mão de obra no início, não por falta de contingente, mas sim porque era necessário educar esse contingente e construir todas essas noções e afinidades.
_ Já no inconsciente o homem sempre teve essa quedinha pelo dinamismo. Você acha o que, negô? Os caras sempre acharam melhor pisar no outro do que ficar parado na sua. É natural. O homem não presta. Só era freado no feudalismo pelos dogmas.
Essas palavras produziram um efeito no outro senhor que até então apenas brincava com seu copo em silêncio e até sem muita atenção na conversa. Mas as últimas frases inundaram-no de uma alegria que o traria de volta a conversa:
_ Ah! Você também acha que o homem não presta? Toca aqui – estendendo a mão para o outro que com um gesto vaidoso retribuiu, ainda que mostrando-se resignado a dar a mão a um idiota que pensava tratar-se aquilo de uma questão de concórdia ou discórdia. O grande desafiante era então o jovem defensor do acaso. A ele queria chocar.
O garçom perguntou-me algo, mas não lhe respondi direito, de absorto que estava naquela discussão sem rumo. Perdi algumas palavras do senhor mais velho, mas pude perceber o silêncio do jovem. Com certeza o velho desferira um argumento de peso ao dizer que homem não prestava. Na ficava bem para um jovem que aspirava ser intelectual de boteco e algum dia escrever alguma teoria importante e vanguardista, discordar de tal frase-chave para qualquer discurso esclarecido da época. O homem não presta. Ponto! O jovem mudou de tática então, passou a aceitar a idéia do outro para poder questioná-la:
_ Se por natureza o homem é mau e o capitalismo condiz com essa natureza, então só nos resta aceitar o capitalismo ou então os dogmas, os únicos capazes de frear essa maldade.
O homem mais velho consentiu e disse ainda que como não aceitava a desigualdade do capitalismo, os dogmas constituíam o único caminho possível. O jovem então sorriu vitorioso, tomou outro gole da cerveja e finalmente sentenciou:
_ Viu como você é mesmo um religioso, porra. Você de fato acredita que Deus colocou aquele peixe para você.
O outro senhor aproveitou a pausa que seguiu o veredicto e ainda excitado por confirmar que o homem de fato não presta desatou a falar como ele mesmo chegara a tal conclusão. Enquanto falava foi interrompido diversas vezes pelo outro senhor, que nesse então fazia citações ou dava exemplos para demonstrar que, mesmo sendo religioso, sua teoria era irrefutável. O senhor mais novo, percebendo que jamais conseguiria terminar seu relato se desse atenção ao outro, pôs-se a relatá-la como se falasse ao jovem apenas. Este por sua vez já não prestava atenção, apenas brincava com o copo. O cenário era bastante cômico, o mais velho olhava para cima e de vez em quando lançava alguma máxima sobre a mais valia ou outra coisa qualquer. O mais jovem absorto no copo sequer olhava aos outros, enquanto o outro senhor crédulo de ter a atenção do mais moço continuava a relatar seu “caminho epistemológico”. Em suma, pelo que pude entender, este último senhor chegara a conclusão de que o homem não presta nos seus tempos de universitário. Curioso e cheio de sonhos, segundo ele próprio, teria feito um quadro com todas as características do capitalismo e outro com as do comunismo. Verificara então que na teoria ambos os sistemas eram perfeitos e se na prática não funcionavam, só poderia haver um elemento estragado: o Homem.
Deixei aí a conversa que tampouco prosseguiu por muito mais tempo. Imaginei o que estariam comentando daquilo o peixe, o acaso e o Homem. Provavelmente ririam altivamente até que o Homem interrompesse perguntando por que merda todos se queixavam dele. Aqueles três discordam em tudo menos em afirmar que o Homem não presta. Claro que se tratava do Homem e não deles.
_ É meu amigo - diria o acaso – Eles falam que a vida é uma merda, que o mundo fede, e xingam a todos nós, porque não suportam ser nada. Querem chamar a nossa atenção e xingam a vida, o mundo, o Homem e o Acaso. Por que não podem ser nada e rir apenas? Ah, se soubessem como é bom... É... não falam do homem, se referem a você. Só você e Caio não prestam, assim como só você e Caio são mortais. Também pudera, só você e o Caio não têm sentimentos, momentos... felizes, nem tristes Vocês dois não existem, são meros objetos de silogismo – os três ririam mais um pouco até que o peixe por fim interviesse:
_ É... meus amigos, e nisso, quem se fode sou eu. Sou pescado e o outro fala que é culpa sua – dirigindo-se ao acaso.
A idéia do peixe falando ao acaso causou-me graça e ao imaginar em seguida o Homem perguntando-lhe a idade, não consegui sufocar uma grande gargalhada. Os três da mesa ao lado me olharam do cume de sua seriedade. Também outras mesas assim fizeram. Percebi que já bebera demais e fechei a conta.

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