Terminou de ouvir uma música do Leonard Cohen, não sabia se era o tom de sua voz, a melodia arrastada, os sons graves ou a noite cadente, mas seu espírito estava revolto a tal ponto que era capaz de provar irrefutavelmente sua existência. Nada havia naquela sala mais material que seu espírito revolto, nem a madeira envelhecida da mesa, a cerâmica descascada da caneca de chá ou o toque do chão em seus pés descalços. Não sabia, no entanto, o que fazer com aquela angústia sem causa, que só podia acalmar escrevendo. Apanhou um bloco de papel onde sempre anotava suas ideias, que dali não saíam jamais. Elas mesmas sabiam-se fadadas ao esquecimento, não se queixavam. Deixavam-se deitar ali, até sossegar-lhe o coração. Escreveu uma hora e meia sem parar naquele fervor, como sempre fazia. As palavras desencadeavam-se como se estivessem prontas há tempos, simplesmente aguardando que delas se servissem. Encheu páginas do bloquinho, não era tanto, o bloquinho era pequeno, mas o suficiente para fazer com sentisse que escrevia para alguém. Terminou satisfeito, tomou o resto de chá já frio e amargo, mas nem se importou, e foi deitar-se. Não tardou em dormir, o sono profundo e merecido, sem sonhos, pesadelos ou qualquer perturbação. Passadas duas horas daquele sono profundo, seus poros começaram a chorar, a transpiração empapava-lhe os lençóis e o incômodo o tirou daquela pequena morte como costumava chamar suas noites bem dormidas. Aos poucos se revirava ainda inconsciente na cama, procurando um lugar seco em meio ao que pareciam ser poças de uma chuva rápida de verão. Finalmente abriu os olhos e tenteou para encontrar o interruptor de seu abajur. Ao acender a luz, porém, não pôde ver as paredes nem a cortina semitransparente de sua janela que sempre lhe informava por alto que horas seriam. Cercavam-lhe, como um castelo de cartas, as páginas de seu maculado bloquinho. Todas as ideias registradas ao longo daquele ano sufocante estampadas em sua letra tremida bem a frente de seu nariz. Tentou mover-se, mas as folhas o impediram, quis levantar-se e foi empurrado novamente contra o colchão ortopédico encharcado de suor. Custou-lhe acreditar e pensou estar a sonhar, detestava sonhar. Mas seus olhos se mantinham abertos e sua consciência era já demasiada nítida para ser um sonho, a constatação causou-lhe uma estranha claustrofobia, como se estivesse enterrado vivo em seu próprio castelo de papel. Encheu os pulmões o máximo que pode e soprou intensamente com a plena certeza de que aqueles pedaços de celulose cederiam, assim mandava a lógica. Mas se de lógica se tratasse, não deveria estar naquela situação e os papéis, sabendo disso, apenas balançaram no ar para logo reacomodar-se ao seu redor. Já às margens do desespero sacudiu os braços e as pernas até a exaustão e, novamente, as ideias materializadas e rebeladas voltaram a cercar-lhe o passo. Deixou-se cair novamente e percebeu que estava soterrado. Morava só, mas Aparecida deveria vir na segunda-feira para fazer a faxina da casa. Faltavam três dias e se ela não faltasse talvez tivesse uma chance. Não teve. Aparecida apareceu somente na outra segunda, para encontrar a cama ensopada e o corpo empapado e emplastado pelos papéis cuja tinta borrada impedia de ler-se qualquer coisa. A polícia supôs que se tratasse de um suicídio, que aqueles papéis nada mais seriam que uma longa carta de despedida, mas infelizmente não puderam ler seu conteúdo. O espírito revolto e toda aquela grande obra, a obra de uma vida singular, mas sem expressão, jaziam em paz agora e a tinta fez-se valer nos poros daquele infeliz.
quarta-feira, 13 de maio de 2009
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