Epígrafe 1:
“...concluí que todas as gerações eram perdidas, por alguma razão, todas tinham sido e todas haveriam de ser.”
Hemingway
Epígrafe 2:
“Viva o clichê! Caminhar sem horizonte. Soa a liberdade. Caminhar sem horizonte. Perdido na verdade.”
Autor desconhecido
“...concluí que todas as gerações eram perdidas, por alguma razão, todas tinham sido e todas haveriam de ser.”
Hemingway
Epígrafe 2:
“Viva o clichê! Caminhar sem horizonte. Soa a liberdade. Caminhar sem horizonte. Perdido na verdade.”
Autor desconhecido
Meado da década de noventa, quando as camisas xadrez pendiam das cinturas e eu suportava o amargor do chopp em troca de uma leve e divertida embriaguez, costumava frequentar diversos bares na companhia de meu amigo Wilton, quem no ano anterior tinha sido meu professor de português. Não lembro bem em que bar, em que circunstâncias ou por que razão, em uma de nossas conversas, do auge de meus vinte anos, da pele viçosa, dos músculos rijos, dos hormônios acelerados e do brilho de meus verdes olhos (apesar de tudo), sentenciei que sua geração era uma geração perdida. Argumentei que era a geração pós-política ou apolítica, a geração da AIDS, do politicamente correto, do niilismo, e Wilton, com seu meio sorriso e óculos de fina armação, entre um gole e outro, consentiu. Talvez aquilo lhe agradasse. Mas por anos essa frase me perseguiu como o feitiço inquebrantável das malévolas bruxas dos contos de fada.
Wilton era uma figura interessante naquele então. Tinha ao redor de 35 anos e desde havia dois anos era professor de português no colégio Rio Branco, onde eu me formara. Entre seus alunos, construía seu reino, seu ponto de conforto, onde inconteste mostrava toda sua paixão pela literatura. Rodeava-se sempre dos alunos e alunas que julgava interessante, e dentre estas últimas escolhia seus amores semiproibidos. No ano em que me formei, era Joana. Nós, alunos, por outra parte, usufruíamos de uma espécie de elo com a maturidade ao fazer parte do seleto grupo de amigos do jovem professor e compartilhar suas noitadas etílicas. Wilton era um precursor, negava-se a desligar-se da juventude e fazia daquele reino sua fortaleza. A cada ano, um novo amor semiproibido alimentava sua esperança pueril. Joana se formara, entrara na faculdade, quis novas experiências, abandonou Wilton e este sofreu. Mas logo Wilton encontrou em Júlia uma nova esperança. Eu conheci Júlia e nada sabia sobre seu romance com Wilton, esta, porém, sabia de minha amizade com ele e com todo sadismo que uma menina-mulher já é capaz de ter, envolveu-se comigo. E lá estávamos nós no bar, Júlia entre nós e a sentença de misericórdia, "sua geração é uma geração perdida".
Wilton tinha em seu apartamento todo o aparato de um boêmio escritor, uma confortável poltrona reclinável de couro, fétidos charutos cubanos para ocasiões especiais e à mão um copo de whisky. De lá falava dos escritores de outrora que eram “phoda” com “ph”. Aos poucos nos afastamos. Encontrávamo-nos às vezes e retumbava entre nós aquela infeliz sentença ou Júlia.
Hoje, quinze anos depois, ouvi quando duas moças argumentavam no supermercado que os trinta anos eram os novos vinte. Olhei para suas roupas juvenis que contrastando com as incipientes rugas causavam certa estranheza, um ar de anacronismo. Agarravam-se como podiam a novas gírias do momento, ninguém merece, vamos combinar, etc. Olhei para mim mesmo com certo desprezo, mas o que se podia esperar de uma espécie que prolongou sua existência muito além de sua fase de desenvolvimento. De uma geração que vê o viço da juventude se perder aos poucos quando este é o único valor remanescente e, exasperada, tenta unhar as paredes sebosas do tempo. Wilton era um precursor. Apesar de tudo, percebi que os trinta continuavam sendo e sempre seriam os velhos trinta e “conclui que todas as gerações eram perdidas, por alguma razão, sempre tinham sido e sempre haveriam de ser". Respondi, meu caro Wilton, àquela figura prepotente de longos cabelos na cintura e inesgotável vigor físico que já não existia, que sim, que éramos uma geração perdida, como a sua haveria de ser. Mas respondi, também, com meio sorriso, já sem óculos e em meio a um gole de suco de frutas, que perder-se é libertar-se e a liberdade é dolorosa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário