Fazia já uns cinco meses desde que começara a freqüentar os festivais, festas e circuitos do mundo do cinema em São Paulo. Em quase todos acompanhava a Maíra, uma documentarista "pop" como ela mesma gostava de denominar os demais artistas que despontavam com certo prestígio no cenário cultural. Ela estava completamente fascinada, talvez obcecada, por mim e eu gostava daquilo. Alimentava sutilmente aquele fascínio, mesmo sabendo que nada havia em mim de interessante. Sempre me divertiu ou impressionou ver as pessoas seduzidas por mim enquanto me perguntava quando descobririam que eu era completamente entediante. Talvez isso se devesse ao fato de jamais deixar que as pessoas soubessem muito a meu respeito. Evitava falar demais e quando, em algum rompante desabafo o fazia, arrependia-me imensamente em seguida. Ficava horas tentando, em um esforço vão, dada minha fraca memória, reconstruir as palavras que tinha enunciado, lembrar as expressões de meu interlocutor ao ouvi-las, etc. Certa vez, em uma mesa de bar, dessas em que todos falam quase ao mesmo tempo, sem ouvir mais que algumas palavras que servem de gancho para recuperar outros assuntos, Lígia me observou por alguns instantes e comentou que eu era um típico escorpiano, pois enquanto todos trocavam confissões embriagadas, narravam suas atípicas peripécias, eu apenas sorria, assentia com a cabeça ou lançava algum comentário insignificante, às vezes irônico, sobre o que se dizia. “Você gosta de mexer nas gavetas dos outros, mas não suporta que mexam na sua, né?". Odiei Lígia naquele instante, ela talvez nem soubesse quão certa estava, nem acredito nesse papo de horóscopo, escorpião o caralho! Mas ela tinha razão, desconversei com algum comentário idiota sobre astrologia, provavelmente tirando sarro de sua aferição.
Chegamos ao festival e, como sempre, logo na porta Maíra encontrou alguém conhecido, foi cumprimentá-lo, mas eu preferi ficar de lado, não queria ser apresentado naquele momento. Mal conseguiria disfarçar a irritação, estava um pouco cansado de frequentar aqueles lugares e ver sempre os mesmos rostos, mesmo quando não eram as mesmas pessoas. Pareciam os ipês amarelos de agosto, cheios de flores amarelas que se espalham, belas, opulentas, infinitas e repetitivas, como aqueles rostos, irritantemente belos, bem arrumados, modernos, opulentos, infinitos e repetitivos. E o que mais me irritava era saber que eu era um daqueles rostos...
Nas rodas sempre tinham algo interessante a dizer, sempre algo novo, trocavam referências, citavam cineastas como quem cita um refrão, um salmo... os nomes desfilavam como palavras de um dicionário que eu desconhecia: Agnès Varda, Constantini, Reygadas, Paul Leduc, etc. Outros obviamente eu conhecia, mas eram como verbetes tristemente acomodados no dicionário que não sabia bem como empregar: Godard, Truffeau, Pasolini, Antonioni, etc. Também havia os que desprezava, embora não pudesse dizê-lo publicamente: Glauber Rocha! Numa dessas rodas paramos, Maíra me apresentou e logo começou a comentar sobre o projeto de alguém que havia sido contemplado por um edital, mas não tinha a menor idéia de como fazer o filme. “Um absurdo... os critérios de seleção. Ela era da área de marketing, soube vender o projeto, mas agora não sabe o que fazer. A diretora de fotografia disse que até faz o trabalho, se ela lhe der também o cachê da diretora. E ela topou? Claro, era isso ou devolver o dinheiro. Como pode uma picareta dessas passar na entrevista? O projeto tudo bem. Mas na entrevista...". Findo o colóquio sobre a picareta, Maíra pediu licença e foi conversar com outra pessoa a quem avistara enquanto falava. Tinha essa horrível mania de apresentar-me e logo sair, deixando-me na situação de ter que conversar com alguém a quem nem conhecia. Odiava aquilo. Desta vez, no entanto, esforcei-me ainda menos para ser simpático, estava realmente cansado daquilo tudo e nem me importei tanto com o silêncio incômodo que se prolongava. Mandava a etiqueta que eu ou minha interlocutora perguntássemos algo um ao outro, cheirássemos nossas bundas, como os cães... Não sei por que ela se demorava, mas eu estava disposto a não ceder... não perguntaria nada. Venci e, meio sem jeito, ela enfim perguntou: “O que você faz?". Assim ríspida e direta, saiu-lhe a pergunta, sem qualquer eufemismo, direto o focinho na bunda. Vi que se arrependia de ter sido tão direta, faltaram-lhe os preâmbulos, "você também é diretor? Está com algum trabalho na mostra? Pasolini? De Sicca, Duras, Bergman? QUEM É VOCÊ?".
Talvez tenha sido pela forma que fez a pergunta, talvez minha irritação acumulada e cada vez mais premente, o fato é que decidi pensar alguns instantes antes de responder. Poderia dizer-lhe que sou ator, não mentiria, mas não fiz nada de grande valor como ator; no teatro, algumas peças que quase ninguém viu e ninguém comentou, no cinema, nada, na TV, algumas publicidades ridículas a que só os traumatizados atores de comerciais, afogados em propanalol, ou conhecidos de outros tempos, que há muito não nos vêem, prestam atenção. “Nos últimos anos, só vejo você na TV!”. Pensei em dizer que era diretor de cinema sim, mas não tinha nada na mostra. Mas envergonhava-me proclamar-me diretor tendo feito somente um curta que saiu tudo errado e não tinha sido exibido em lugar algum. Pasolini, Visconti, De Sica, Godard. Escritor seria mais coerente, tenho cinco ou seis peças escritas, algumas já encenadas (por mim mesmo), alguns contos engavetados que no máximo alimentarão traças, poemas espalhados em cadernos escolares. Mas todo aquele palavreado pueril não poderia contar. Além disso, sempre se diz que o escritor deve gostar de ler muito. Certamente já li muito, muitos livros, mas nunca de forma metódica, sou impaciente e vou abandonando os livros com suas páginas abertas. Poderia, hipocritamente jogar a culpa na pós-modernidade, "sou filho da pós-modernidade", não suporto ficar parado, preciso de movimento, movimentar-me de um livro a outro sem jamais perceber que estou andando em círculos. Seria bonito dizer isso, me eximiria do fardo de ser um idiota, consciente e idiota. Poderia dizer-lhe, então, que era tradutor. Aqui sim meu currículo é mais extenso, manuais de peças de navio, equipamentos hospitalares, teses de ciências políticas, newsletters, não faltariam comprovantes de meus anos de experiência. Afora a satisfação de clientes com traduções tão apropriadas mesmo quando, na ausência de tradução para palavras tão específicas e recentes, jargões de mecânicos ou médicos, aventurava-me com alguma invenção especulativa ou “licença poética”. Colava, os idiotas viam o termo tão pomposo, na certa pensavam "este deve saber o que diz". Enfia a bitola no meio da frase, já fica bom... Mas eu detestava aquilo, não queria dizer que a Telefônica tinha muitos de seus manuais em português graças a meu trabalho explorado. Europeus filhos da puta, contratam aqui unicamente porque é mais barato. Poderia ser um indiano. Tanto melhor, paguei meu aluguel. Também como designer gráfico teria muitos trabalhos para comprovar, sites de restaurantes, administradoras, empresa de eventos de mulheres cretinas que passaram a vida planejando seu casamento, mas depois disso perderam o sentido de sua vida. A festa acabou. Abrem a empresa de eventos para continuar organizando eventos. O marido adora e vai ao puteiro todas as quintas-feiras. A empresa até que é lucrativa. Também não tive vontade de dizer que era designer. A impaciência de minha interlocutora aumentava, bem como sua surpresa, era um pergunta fácil. "Cara estranho". Podia inventar que era fotógrafo. De fato, dezenas de pessoas utilizavam minhas fotos em seus sites de relacionamento, capas de DVDs, cartazes de espetáculos, portfólios, etc. Nunca cobrei um puto, porém, e eu mesmo odiava minhas fotos. Era capaz de imaginá-las, mas sempre terminavam com o mesmo vício do olhar. O meu. O olhar antiquado, quadrado e até mesmo cego. Nada mostravam, porque mostravam somente o que todos vêem. Toda essa reflexão já ultrapassava o limite do razoável em uma conversa normal. Teria que responder sem mais demorar-me. Respondi então: “Nada, não faço nada.”
Com algo de surpresa olhou-me, mas não tanta surpresa, pois parecia que a resposta servia para corroborar a opinião que vinha formando. "Como assim? Nada? Quem é você?". Esta pergunta veio tão direta como a anterior. Mas desta vez nem pensei para responder. "Ninguém. Não sou ninguém. Existo e pronto”. Antes que ela pudesse retrucar qualquer coisa, virei as costas e fui embora. Não sei que caminho fiz, o caminho que ninguém faria, mas em uma hora já estava em minha casa, vendo TV. Um jogo de vôlei das olimpíadas.
Não sei quem era aquela pessoa com quem tive a estranha conversa, mas o fato é que Maíra não voltou a me ligar. Não que me importe com isso, mas parece que não sou "pop" ou sou louco. Ou, então, não sou “pop” e sou louco. Maíra não voltou a me ligar.
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