Conto erótico 1
Eu sabia que ela tinha acabado de transar. Podia ver pela ponta molhada de seus cabelos deslizando pela atrevida nuca. Sabia pelos movimentos de seu quadril, pelos seios duros que se insinuavam pela blusa apertada sob o avental. Os mamilos indecentes relutavam em descansar e estampavam seu relevo sob o amontoado de panos. Eu a observava mover-se pelo salão do café com um ar desaforado e os lábios intumescidos ainda entreabertos. Pedi o cardápio. Ela o trouxe sem me ver. Folhei sem atenção suas páginas engorduradas e com os olhos teimosamente pousados sobre suas ancas. Sabia exatamente o que pediria, nem precisava do cardápio. Um café, que também trouxe sem me ver. Foi uma sequência sem sentido de pedidos, que fazia somente para vê-la andar do balcão até minha mesa, desviando sinuosamente das demais. Um pão de queijo, uma torta doce cujos ingredientes não pude distinguir, outro pão de queijo, uma porção de algo, de passos voluptuosos, outro café, ela nem sequer estranhava que a outra xícara estivesse ainda quase cheia. Não me notava, suspirava, respirava, apontava-me impunemente seus indecentes mamilos e não estava lá. Eu sabia que tinha acabado de transar, atrever-me-ia a dizer que tinha gostado. Sua indiferença me irritava profundamente, eu já conhecia cada detalhe de seu corpo, o imaginava nu, lambera com meus olhos cada um de seus poros. Provavelmente tinha um pequeno e nojento piercing em seu umbigo que com meus dentes queria arrancar até ver brotar a gota de sangue indolente. Mas ela nem me via, trazia-me os pedidos como uma submissa gueixa, mas não me via. Piranha. Sua indiferença me enervava e excitava. Dava-me vontade de estrangulá-la, segurar-lhe com minhas mãos o fino pescoço que desfilava com pequenas gotículas de suor ou do cabelo ainda úmido; apertá-lo até que o ar retornasse da goela resignado por não poder cumprir sua nobre função, até que sua língua estendida arroxeasse, seus olhos revirassem e seu corpo perdesse de vez aquela insuportável arrogância. Seu corpo imóvel jazendo a minha frente com o estúpido avental, gueixa indolente. Retiraria cada peça de sua roupa, sua calcinha promíscua, e a seviciaria. Seus músculos exauridos ainda conservariam uma lembrança erótica do que era um toque masculino e responderiam com pequenas contrações que fariam duvidar daquele corpo exânime. Mentirosa! Vives... Faz-me gozar, mentirosa! Traz-me a conta, por favor. Trouxe. Eu sabia que ela acabara de transar, atrever-me-ia a dizer que tinha gostado. Paguei e ela não me notou.
Não a deixaria assim tão fácil, gueixa servilã, arredia e fugidia, como se atreve a deixar-me a conta assim friamente apoiada sobre a mesa.
_ Sei que você acabou de transar – disse entregando-lhe uma nota de 50 reais –, posso ver por seus movimentos voluptuosos, por seus seios irritantemente empinados, seus mamilos arredios. (Ela me olhou com interesse pela primeira vez). Até seus poros exalam odor a sexo. Sua nuca olha a todos com indiferença e autoridade enquanto você anda distraída do balcão às mesas. Aposto que você nem sabe o que me serviu, ser vil!
Jamais teria me atrevido a tanto se não notasse em seus olhos um brilho ainda mais excitado a cada insulto e um último sorriso malicioso. Foi a primeira vez que notei o vinco que se formava ao redor de seus olhos ao sorrir e tive uma vontade insuportável de lambê-los. Antes de sair, sem pudor algum ela me disse que saía às dez.
Acordei ao redor das nove da manhã, preparei o café, coloquei o comprimido de Isabela sobre a mesa e a chamei. Desceu as escadas com cara de sono, sentou-se a mesa sem dizer nada, tomou o comprimido, o café e uma fatia de queijo. Depois do café da manhã fui trabalhar no artigo que estava escrevendo enquanto ela assistia à TV ao meu lado. Escrevia um artigo sobre a função social da arte, ressuscitava a nunca morta questão: a arte deveria ter uma função social? Artistas mais viscerais apressavam-se em gritar que não se devia procurar nenhuma função ao seu fazer, pois era a mais pura expressão de seu íntimo. Logo críticos e teóricos respondiam quase coléricos que por mais íntima que fosse sua expressão, não podia deixar de ser social, pois o artista pertence necessariamente a um contexto histórico-social. Por outro lado, na TV a esposa acusava o marido de tê-la abandonado para viver com a afiliada. Reclamava de não receber as pensões em dia para sustentar o filho do casal. Ele, rindo seus poucos dentes, dizia que não podia pagar, pois não tinha emprego fixo. Mentira! – gritava a esposa. Isabela absorta perguntou minha opinião. Não sei – respondi enquanto pensava no hic et nunc de Benjamin. O resto do dia não nos falamos, à noite perguntei-lhe se tinha fome, mas não me respondeu. Insisti e explicou-me que se irritava com minha indiferença, que não queria conversar comigo. Brigamos, como quase todas as noites. Senti por ela uma imensa raiva, uma vontade insuportável de estrangulá-la, de segurar-lhe o pescoço úmido pelo suor que se acumulava na almofada do sofá, apertá-lo até que o ar retornasse de sua goela resignado por não cumprir sua nobre missão, até que sua língua estendida arroxeasse, seus olhos revirassem e seu corpo perdesse de vez aquela moleza lesmenta. Aumentou o volume da TV, eu quis que ela fosse embora, levasse consigo o aparelho colado ao ouvido como os dançarinos de break faziam com seus imensos estéreos nos anos oitenta. Levantei-me irritado, tirei a TV da tomada e vi a minha frente somente o rosto da ira. Quando se enervava, ao redor de seus olhos formavam-se os mesmos vincos de outrora. Quis lambê-los e os lambi. Surpresa, ela sorriu e os vincos só se acentuaram, tirei sua roupa, o mesmo pijama arrastado desde a noite anterior. Fizemos amor, como um casal com raiva, quando os casais fazem amor, e ao terminar, tínhamos uma só respiração que se misturava no contato de nossos ventres, mas nossos rostos olhavam para lados opostos. Ela se vestiu, ligou a TV e eu continuei meu artigo sobre a função social da arte. Nunca soube se ela tinha ou não transado aquele dia...
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