Alexander tinha seu rosto iluminado pela tela do laptop de Piotr enquanto escrutinava rapidamente arquivo por arquivo. Nenhuma outra luz do laboratório estava acessa, pois não queria chamar a atenção. Conforme avançava na leitura dos arquivos sua expressão de preocupação se acentuava. Quando ficava consternado, costumava erguer a sobrancelha esquerda. Se tentasse o movimento voluntariamente não conseguia, porém sempre que algo lhe afligia, sua sobrancelha esquerda se elevava em assombro. Era como se mantivesse o olho direito sereno, capaz de compreender racionalmente o que via, enquanto permitia ao esquerdo envolver-se como uma fêmea. Levantou-se lentamente e com uma lanterna iluminou alguns frascos e tubos de ensaio, revisando cada etiqueta. Voltou a sentar-se e a ler silenciosamente a não ser por quase inconscientes interjeições de espanto.
_ Alexander, o que o senhor está fazendo? – invadiu o silêncio a tonitruante voz de Piotr, deixando em cacos a quietude que Alexander se esforçava em manter.
A imponente figura de Piotr ganhou contornos titânicos quando a luz do corredor que se infiltrava pelo vão da fria porta metálica invadiu o ambiente e projetou sua sombra sobre os ombros de Alexander e sobre a parede. Piotr era maior e mais novo que Alexander e apesar de sua juventude (já algo desbotada) tinha profundas rugas de expressão entre suas sobrancelhas, como se estas jamais abandonassem um franzir preocupado mesmo nas escassas festas de confraternização promovidas pelo departamento.
Recuperando-se do susto e contraindo os olhos diante da opulenta luz que entrava pelas costas de Piotr, Alexander percebeu que não poderia mais postergar aquele duro diálogo.
_ Já sei de tudo. – asseverou.
_ Do que o senhor sabe? – inquiriu Piotr, tentando inferir a dimensão do problema.
_ Sei que o senhor está desviando verbas e material do departamento para pesquisas próprias.
_ Então, o senhor não sabe de nada. Não são pesquisas próprias.
Com firmes passos, aproximou-se à bancada e fechou o laptop, como se ainda pudesse ocultar algum segredo.
_ Não, como não? Não foram aprovadas pelo conselho.
_ O conselho! O conselho não é mais que um grupo de catedráticos ortodoxos que não entende nada. Depois, os louros serão de todos.
_ Serão de todos, mas não é assim que deve ser! Toda pesquisa deve ser aprovada pelo departamento. E sua pesquisa é contrária aos princípios éticos do conselho.
_ Não é contrária a princípio algum, somente procura outros caminhos.
_ Que outros caminhos? O senhor bem sabe que a política do departamento proíbe qualquer pesquisa com células tronco que não tenha como meta a saúde pública...
_ Antes que o senhor prossiga com esse ridículo e obsoleto manual de etiqueta, deixe-me abrir-lhe os olhos para o novo, Alexander. Minha pesquisa é voltada para a saúde pública.
_ Devo lembrar-lhe então, que a área de estética não se enquadra na definição do departamento de saúde pública, conforme...
_ Outra vez o departamento, o senhor não vê? Claro que se trata, somente um conselho de decadentes é incapaz de não perceber isso. Mas o senhor sabe... Sabe como eu, que envelhecer não é preciso! Ver nosso rosto cada vez mais tomado pelas marcas do tempo, pelas rugas, nosso vigor se perder em uma edaz melancolia... E as inúmeras pessoas que hoje se submetem a práticas tão primitivas para buscar a ilusão da juventude, injetam-se substâncias butolínicas, esticam-se a pele, extraem ossos, tudo para manter uma ilusão. Nós podemos dar a elas mais que a ilusão! A regeneração natural dos tecidos e o eterno retorno ao viço da juventude.
_ Não! Não seria também mais que ilusão, não podemos fazer isso, seria contrariar a natureza por um simples capricho!
_ E acaso, combater as doenças não é contrariar a natureza? Se aceitarmos seu argumento, devemos abandonar todas as nossas pesquisas e deixar que as pessoas sucumbam às atrofias e aos males que nós quisemos definir como patologias. A atrofia, o desgaste, a perda do vigor, não são também patologias causadas pelo mais temido dos males, o tempo?
_ Não! Os limites devem existir, pois em última instância sua pesquisa busca burlar a morte! E isso não podemos fazer.
_ Sim, podemos! A regeneração eterna, depois que a maçã foi mordida não nos resta mais que saboreá-la até o fim!
_ Não me venha com metáforas! Se o senhor acha de fato que sua pesquisa tem relevância para a saúde pública...
_ Claro que tem, a infinidade de pessoas que sofrem dia a dia por ver-se decair, procuram a solução à custa de sangue, poderá...
_ O senhor não vê? Se levar a cabo seus experimentos, poderemos criar uma sociedade dividida entre uma juventude eterna, capaz de pagar por tratamentos deste tipo, e uma classe de velhos, rancorosos, impotentes diante da juventude alheia. Seria uma sociedade de aberrações, gerações se misturariam em uma promiscuidade degenerativa e o rancor entre as classes atingiria níveis insuportáveis.
_ Nós não inventamos a sociedade! Ela é assim com ou sem nossa ação! Nós inventamos coisas!
_ Sim, nós inventamos a sociedade a cada avanço nosso e devemos cuidar nossos passos. A ciência não é a resposta, mas sim quem formula as perguntas a serem respondidas! Se o senhor realmente pensa que sua pesquisa é relevante, deverá prestar contas ao conselho!
_ Ao conselho? O conselho jamais aprovará esta pesquisa!
_ Convença-o. – Alexander começa a se retirar, mas Piotr se precipita sobre ele e o empurra. Seu corpo estremece ao contato com a porta metálica do gabinete que se abre, deixando pender um braço. – O que é isso, Piotr?
_ Eu já cheguei muito longe para pôr tudo a perder. Ninguém interferirá agora!
Alexander se recompõe e volta a dirigir-se à saída, mas Piotr se interpõe e, aproveitando-se de sua maior envergadura e juventude, imobiliza seu interlocutor. Alexander debate-se, tenta safar-se e, ameaça gritar, mas sua voz é reprimida pela mão de Piotr munida de um lenço embebido de um violento sedativo.
O corpo dominado de Alexander aos poucos cede aos apelos da gravidade e quando Piotr o sente esmaecer em seus braços, ergue-o e desaparece por um longo corredor ao fundo do laboratório. Ainda com a vista baça e sem forças para nenhuma outra reação, Alexander vê o que pensava ser um simples almoxarifado dar lugar às paredes assépticas de uma recôndita ala. As luzes brancas e duras fazem-lhe arder os olhos e aos poucos, antes de enegrecer, tudo se torna um uniforme clarão.
Primeiro infiltra-se o zumbido em seus ouvidos e lentamente a vista empurra as pálpebras em busca de uma fímbria de luz. Os olhos se abrem, mas só vê o clarão que novamente vai dando lugar a formas brancas e claras. Pouco a pouco, reconhece essas formas, mas não sabe bem se está na escola deitado no corredor após uma pequena síncope provocada por uma forte concussão na cabeça, em sua cama, ouvindo ao longe os gritos de sua mãe que o apressa para ir a escola ou se é sua mulher quem lhe sopra ao ouvido que o café está servido. Não consegue ainda reconhecer o lugar, mas sabe que não é nenhum desses tão familiares, vê uma figura a sua frente, mas não consegue reconhecê-la. Parece imitar-lhe minuciosamente cada gesto, a imitação, no entanto, alcança graus de perfeição impossíveis mesmo para o mais destro dos mimos. Os olhos já não o enganam tanto e é capaz de distinguir a moldura desbastada do espelho a sua frente. Franze a testa e comprime os olhos para que a luz forte do laboratório não ofusque a precisão de sua vista. É capaz de ver todo o espelho, mas não se reconhece nele. Um moço está em lugar de sua imagem, um moço vinte anos mais novo que ele, mas com o mesmo olhar confuso. Ao fundo, percebe a presença de Piotr que apóia a mão em seu ombro com uma expressão sorridente. Já não tem a testa franzida. Antes mesmo de lembrar-se de tudo escapa-lhe da boca a interjeição.
_ Meu Deus... É o fim.
_ Não, é o início. – ri Piotr.
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