Foi paixão à primeira vista, um incêndio alastrando-se por um rastilho de pólvora, como se todas as flechas do inadvertido cupido se dirigissem àqueles dois desprotegidos corações. E assim seria com milhares de outros clichês, tormenta em mar sereno, relâmpagos em céu morno, chamas espontâneas da noite, etc. Mas o fato é que ele não pôde deixar de notar os longos cílios sobre os olhos verdes dela. Tinha cara de russa e ele tinha uma queda por mulheres com aparência russa. O lenço de seda cobria sua cabeça calva e, com exceção daqueles longos cílios, o rosto não tinha nenhum outro pelo. Também ele estava completamente calvo sob o gorro de lã, no rosto nenhum pelo, nem sequer sobrancelhas e cílios. Sobressaíam os grandes olhos também verdes no meio de toda aquela pele imberbe. Na verdade, estava com cara de alemão, não gostava de parecer um alemão, mas, ainda assim, seus olhos verdes continuavam a cuspir fogo. Havia duas televisões penduradas na parede da sala. Alguns olhavam para a que ficava de frente às cadeiras, que transmitia um programa com perseguições policiais incríveis. Outros torciam o pescoço para ver um desenho animado que, no entanto, parecia bastante desanimado. O silêncio era a regra, embora algumas conversinhas insistissem em perfurá-lo. Ele não olhava para as TVs, olhava fixamente para a “russa”. Preservava esse hábito de olhar com insistência para a nuca das mulheres que o atraíam, na esperança que seu olhar roçasse a pele do pescoço nu, se espalhasse como um arrepio irreprimível por toda a espinha, chegasse ao ventre dormido e se fizesse notar. Era, então, um valente conquistador. Bastava, no entanto, que elas virassem o pescoço e lhe devolvessem o olhar, deixando que soubesse de algum modo que sentiram o sopro na nuca, para que seus próprios olhos procurassem o chão, e mais embaixo talvez, em um ato de covarde timidez. Assim foi que a russa retrucou-lhe o olhar, não uma vez, mas várias.
Nesse jogo de olhares insistentes, mas fugidios, ficaram ao som estridente do painel que anunciava cada senha de atendimento. O seu era 473, qual seria o dela? O 468 se levantou lentamente atendendo ao chamado do frio painel e dirigiu-se à porta da sala, para depois desaparecer pelo corredor. O 469 não atendeu ao chamado. O nariz dela era empinado, ele gostava de narizes empinados, sua pele muito alva, como quem foge do sol, decerto naquele então fugiria. Ele também era muito branco, mas estava mais amarelado ou esverdeado, também evitava ao máximo o sol. Tirou seu gorro de lã para coçar a cabeça em um ato de impaciência e revelou toda a nudez de sua cabeça. Era só pele e olhos. Olhou para o chão, pois sabia que ela o observava, sentiu frio de novo na cabeça, o ar condicionado era insuportável, voltou a vestir o gorro. Como, apesar de tudo, ela se mantinha tão bonita, com os seios tão firmes que marcavam a blusa de algodão? Ele se levantou para pegar um copo d'água, talvez quisesse mostrar que também estava firme, apesar de tudo. Ela notou.
O painel finalmente chamou o 471, ela se ergueu e saiu da sala, não sem antes lançar-lhe um derradeiro e discreto olhar. Ele olhou para o painel para verificar a qual sala se dirigia. Sala 8. Ficou ali, sem mais ter a quem dirigir o olhar de fogo, e, então, acalmou seu olhar sobre as incríveis perseguições policiais. Faltavam dois números apenas, rezava em silêncio para que o chamassem na Sala 8 também. Os números teimavam, porém, em alterar-se no painel. A impaciência só não era maior que o desejo de não estar ali. Mas era o que tinha que fazer, então que viesse logo sua vez e que fosse na Sala 8.
472, levantou-se alguém, sala 6. Não queria ir à sala 6 com alguém, queria a sala 8, com ela, com a russa. Tempo, perseguições policiais, o meliante é algemado, teria o que merecia. 473, sala 5. Era sua vez, não era a sala 8. Suspirou, resmungou talvez, e dirigiu-se à porta, para também perder-se no corredor até a sala 5. Esperava que a enfermeira ou enfermeiro, na verdade auxiliar de enfermagem, fosse habilidoso, conseguisse pegar sua veia na primeira tentativa. Tinha antes veias tão boas. Agora não. Mas com um pouco de calma respirou fundo quando lhe mandaram respirar, fechou os olhos e tentou relaxar, o sangue refluiu, a veia estava salva. Primeiro o antiemético e o antialérgico, meia hora de doxorrubicina, mais um soro, estava livre, já mal lembrava-se da russa. Lembrava-se sim, mas queria ir embora. Terminara mais um ciclo. O que se seguiu foi o habitual, uma semana quase pregado na cama, enjôos, alguns vômitos, uma total falta de apetite, dores nas pernas, nenhuma chance de pensar na russa. A segunda semana já lhe trouxe algo mais de forças, mas também uma insuportável dor no ânus na hora de evacuar. Na terceira semana, essa dor já começava a ceder ou ele a habituar-se, mas a língua parecia cravejada de espinhos e os olhos ardiam até adormecerem. No domingo, anterior ao novo ciclo, encontrava-se no auge de seu ânimo, embora soubesse que no dia seguinte, voltariam a matar cada célula de seu recém parido ânimo. Era só nessa época que o apetite ou os apetites voltavam a ao corpo. Como numa espécie de ritual que inventara para si próprio, sempre no domingo, antes do novo ciclo, tomava sorvete de doce de leite depois do almoço. Era o único dia em que sentia esse desejo, e parece também que, por estar o estômago tão próximo do baixo ventre, não era incomum que se despertasse também a concupiscência. Pensou na russa. Já era bastante difícil descrever os sentimentos que lhe arrebatavam naqueles domingos, em que o medo, a ansiedade e o doce de leite se confraternavam em sua alma, somava-se agora aquele início de desejo e uma série de incertezas. Não sabia se a encontraria novamente, seria o seu ciclo como o dele, a cada três semanas? Mesmo se fosse, era possível que seus exames o impedissem de fazer o ciclo ou, ainda, quem sabe, ela já tivesse terminado? Voltariam a se ver? Desejava tanto vê-la.
Novamente o painel estridulava com seus números implacáveis e a televisão parecia continuar exibindo os mesmos programas, como se o tempo não tivesse passado, os enjôos, a dor no ânus, na língua, nos olhos, nas pernas, nada disso tivesse existido. O alarme do painel concutia o habitual calafrio em todos os pacientes. E ela não estava lá. Seu olhar, outrora de fogo, não escondia sua frustração. Assistiu às incríveis perseguições policiais. O meliante era algemado. Teria o que merecia. 641, era seu número, ela não estava lá. Levantou-se e dirigiu-se à sala 7. Mas ao passar pela porta da sala 5, sem esperar viu os grandes cílios sobre os olhos verdes. O tempo se fez algo mais lento, ou talvez fosse ele que estivesse parado na frente da sala 5 enquanto o auxiliar de enfermagem o chamava da sala 7. Fingiu confundir-se de sala e teve tempo de, com um meio sorriso, dizer-lhe oi. Ela sorriu de volta e respondeu a seu cumprimento. Tinha certeza que sorrira também. Ao menos meio sorriso, como fora o seu. Continuou até a sala 7 e o que veio a seguir foi o de sempre, punção, infusão, horas de soro, cisplatina, doxorrubicina, 3 dias, uma semana de um cansaço insuportável, enjôos, alguns vômitos, nenhum apetite, dor no ânus, na língua, os olhos ardendo. Esta vez o cansaço durou mais tempo, teve tontura, dor de cabeça ao levantar-se rapidamente, o domingo e o sorvete de doce de leite. Era o último ciclo, a ansiedade se redobrava, assim como o medo e a quantidade de sorvete. Era o último daqueles ciclos e com o medo habitual vinha também o medo de retomar, retomar suas forças, suas atividades, voltar a lavar a louça, olhar para a nuca nua da russa sobre o lenço de seda... Já trocaram cumprimentos, teria o direito de falar-lhe se a encontrasse. Não a encontrou... O ciclo foi igual, exceto que desta feita deram-lhe sangue, pois estava muito anêmico.
As forças começaram a voltar, desta vez em definitivo. Os cabelos e os pelos já despontavam, azulavam sua cabeça, seu rosto, sua sobrancelha. Não voltaria a fazer a barba, prometia-se. Desejava ser hirsuto dos pés à cabeça numa espécie de revanche. E assim, com seu gorro de lã, o rosto azulado com os neonatos pelos e uma surrada calça jeans que havia muito não vestia, entrou na sala de espera do setor de oncologia para a consulta de retorno. Concutia o habitual e estridulante alarme do painel a cada troca de número, 823 era o seu. 810 era o dela, soube-o quando a viu levantar-se e dirigir-se ao guichê número 4. Também luzia com o brilho de sua recuperação, andava sem claudicar, e o lenço mal ocultava os já salientes pelos. Desejava ver sua cabeça sem o lenço e a ideia o excitava como se o lenço cobrisse suas partes pudendas. Ela também o notou e deixou escapar um delator meio sorriso. Era hora, hora de falar-lhe, a hora que sempre o intimidava, mas desta vez, talvez fosse a última vez, teria que fazê-lo. Ela retornou do guichê e sentou numa cadeira mais próxima, o passo seguinte devia ser seu. Levantou-se e foi buscar água. Esperou que ocupassem sua cadeira e foi sentar-se ao lado dela. Começou a conversa como pôde, e o que pôde foi dizer que a encontrava muito bem, com uma aparência muito melhor. Arrependeu-se logo, pois se entregava assim, como se ela e sua nuca já não o soubessem, além disso, ela poderia pensar que antes a achava com uma má aparência, o que não era verdade. Mas ela mostrou-se generosa, agradeceu e retribuiu o elogio, comentou algo sobre a incipiente barba, o que lhe deu confiança para comentar sobre os cílios. Quis saber por que os dela não tinham caído. Ela não sabia e ele aproveitou para dizer com sutileza que eram os cílios mais bonitos que já tinha visto. A conversa continuou, ofereceu-lhe um chá ou um café e foi buscar dois na máquina. Quase correu com receio de que a chamassem para a consulta e ele ficasse na sala de espera, só e com dois cafés na mão. Voltou tentando esconder seu ofego e ela sorriu ao vê-lo retornar. Continuaram falando por mais de uma hora, nunca se sentira antes tão feliz com o atraso de um médico, nem sequer foi queixar-se. Falaram de tudo, menos de suas doenças e de seus trabalhos. Não tinham interesse em saber o que cada um fazia ou tinha tido, falavam do que gostavam, de filmes, de livros, de comidas, de animais de estimação, ele tinha um cachorro, ela um hamster. O assunto não terminava, pois não queriam deixar de falar, mal ouviam o som, já incorporado ao dia a dia, do alarme do painel. Mas chegou o momento em que este gritou, repetiu-se, insistiu até que ela percebesse que era seu número, sua consulta. Deviam despedir-se. Sem jeito, foram beijar-se no rosto, como recomenda a etiqueta. Mas por algum estranho e inexplicável erro de cálculo, explicável talvez para algum psicanalista disposto a debruçar-se sobre os atos falhos, seus lábios se tocaram, tocaram-se por segundos e o beijo prolongou-se. Foi um beijo discreto e cuidadoso, havia muito tempo que nenhum dos dois experimentava contatos mais íntimos. Foi um beijo discreto e cuidadoso, mas intenso, prolongado, sem línguas a se debaterem, só lábios úmidos. O painel voltou a gritar, separaram-se. Pensaram um instante em trocar telefone, e-mail, contatos. Tchau, boa sorte, ele disse. Ela sorriu e se perdeu no corredor em direção aos consultórios. Talvez soubessem que não podiam ou não deviam voltar a ver-se, eram pacientes, somente pacientes deviam ser. Ele não sabia o que ela tinha tido, ela tampouco sabia qual havia sido seu câncer, mas os dois, em um acordo tácito e silencioso, devem ter pensado nas gerações futuras, no que carregariam seus genes, sentido o peso inconsciente da seleção natural. Não trocaram telefone, nem e-mail.
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Nossa é intenso e lindo.Só acho que poderia acabar em " somente pacientes deviam ser", porque tudo o que vem epois já foi dito no texto e quem diante de amor deste se importaria com seleção natural?
ResponderExcluirbj, demais mesmo- carne e alma.
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